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SPé na areia

Crônica publicada no Estadão – Esquina Encontro sobre cidades

Mantendo altas as expectativas de ano-novo, suponho que esta crônica terá audiência. E suponho além: que essa almas bondosas tenham passado pelo Litoral Norte do estado de São Paulo durante a virada.

Longe de mim desejar sufoco a quem quer que seja. Sei que os congestionamentos são terríveis, que o urbanismo em toda a extensão da Rio-Santos é um desatino e, não raro, o veranista chega ao cúmulo de não encontrar gelo. Eu não fui. Mas passei pelo menos metade dos meus réveillons por lá e guardo imenso carinho. Não consigo escapar à referência. Na memória, o afeto é cláusula pétrea.

Supondo pois, que você passou por lá e que, por consequência, foi à praia, creio que por um momento reparou nas construções chamadas “pé-na-areia”. Restam poucas casas originais, despretensiosas, com piso de lajota e bancos em madeira nua na mesa de refeição. Grande parte deu lugar a vastos casarões. Muitos destes se mantiveram despretensiosos no acabamento. Mas em área construída alcançaram a estratosfera. Cinco, seis, sete suítes, como se encomendados pela Branca de Neve.

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Mas na verdade, grande parte das encomendas foi de matriarcas e patriarcas tão generosos quanto sonhadores, que imaginaram poder veranear junto à família em santa paz., enquanto até os sete anões sabem que é questão de tempo para o espelho sofrer um ataque de sinceridade e dizimar a harmonia. Com efeito, o casarão se queda vazio, enquanto o custo de manutenção permanece cheio.

Com sorte, um sonhador 2.0 surge com uma oferta para comprar o casarão e montar a pousada que, naturalmente, sonhou pensando em ter sossego durante a aposentadoria – gesto de comovente inocência. Acontece. Mas o mais comum – e você que passeou pela orla talvez tenha notado – é a demolição do casarão e a construção de um condomínio em seu lugar.

Sim, eu sei que é chato, concordo que os casarões têm seu charme. Mas a dura realidade é que pouca gente pode, e menos gente ainda está disposta a manter um casarão “pé-na-areia”.

A referência caiçara tem a ver com a época do ano, porém a ideia é chamar atenção para a cidade de São Paulo, que abriu debate para a revisão do Zoneamento, nome vulgar da Lei de Parcelamento, Uso e Ocupação do Solo (LPUOS), capitaneado pela Secretaria Municipal de Urbanismo e Licenciamento (SMUL).

Entrando na página da SMUL no Facebook você vai encontrar um convite à participação no debate sobre a LPUOS. E também encontrará em destaque imagens do parque que se pretende no Hipódromo Cidade Jardim – Jockey Clube. Os três assuntos se relacionam. Porque em São Paulo cada parque é uma praia. E o que temos ao redor do Jockey? Dois lados com grandes avenidas e dois lados com… casarões.

Transformar o Jockey em parque é uma proposta antiga e boa. O projeto do consórcio Königsberger Vannucchi + Levisky Arquitetos ficou bonito e parece ser a solução para um problema até mais antigo. Mas deve avançar pensando no entorno. E o momento para tratar disso a revisão do Zoneamento.

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Os casarões com quatrocentos, quinhentos e alguns com mais de mil metros quadrados de área construída não combinam com a vida contemporânea. De novo, pouca gente pode ou está disposta a manter algo nessas dimensões. E mais distante, ou simplesmente além do lote, o êxito do uso de um parque inclui ter bastante gente morando perto e frequentando a pé ou de bicicleta, e não ser um equipamento dependente de garagens para carros. (Vale pensar também no acesso pela estação Cidade Jardim da CPTM, mas este é outro assunto.)

Não há necessidade de demolir os casarões ao modelo do que foi feito no litoral. A melhor adequação viria do modelo das velhas townhouses inglesas ou americanas, divididas por dentro em pequenos apartamentos de até 100 m2.

Ao contrário do que se possa imaginar, uma medida assim não transtornaria a região. Muito pelo contrário. Primeiro porque os casarões e o bairro foram pensados como habitação para várias pessoas. Eram famílias com muitos filhos e diversos empregados morando sob o mesmo teto. Modelo que prescreveu, esvaziando a paróquia. Restabelecer a densidade original é desejável. E tanto que o projeto prevê torres residenciais na área do parque.

Depois porque a oferta de um parque novo, numa cidade com tamanha demanda, atrairia público a bordo de automóveis – aí sim levando o caos dos congestionamentos e procura por vagas, sobretudo aos finais de semana. Indesejável, para dizer o mínimo.

Começando lá, o modelo poderá ser replicado em outras praias. Balneário Circular do Bosque, Saco do Villa-Lobos, Enseada do Ibirapuera-IV Centenário. Casarões disponíveis há aos montes. E creio que vontade do mercado de realizar dentro da lei, também.

 

Léo Coutinho é escritor e jornalista, membro do Conselho Participativo Municipal na Prefeitura Regional de Pinheiros

 
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