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Pulgas

Sou rodrigueano. Desconfio de qualquer decisão unânime. Quando saída de uma trinca de cabeças privilegiadas, incontestavelmente acima da média, a pulga atrás da minha orelha se casa. Se estas chegam a conclusão tão exata, como doze anos e um mês, as pulgas formam prole.

A freguesia desta página, por gentileza, se controle. Sei bem como é a torcida pela prisão do Lula. Também sei que durante a primeira década deste século critiquei praticamente sozinho o governo petista, enquanto a grande maioria dos ora revoltados diziam que era despeito de tucano e aproveitava o momento para quitar o Audi ou dar entrada na varanda gourmet. Me lembro de cada uma das conversas que tive, mas não serei indelicado em reproduzi-las – tanto para não expor os amigos quanto para não cansar a audiência. Mas que fique claro: não era despeito. Era crítica. E extensiva à oposição cretina feita pelo PSDB, um dos motivos que me fizeram sair da legenda.

Enfim, hoje a Folha mostrou que lá no TRF-4, dos 104 réus da Lava Jato, só 8,7% tiveram a mesma sorte, isto é, ver uma decisão idêntica ao correr do martelo. Com efeito, as costas das minhas orelhas já se parecem com a popa do iate da deputada Cristina Brasil, a não-ministra do Trabalho do Brasil. Sensação de bacanal.

Se é que interessa meu palpite sobre o tríplex, vou anotar: sim, em algum momento houve intenção de presentinho espúrio. Mas não sou advogado e muito menos juiz. Meu negócio é comunicação. Construção de narrativa. E nesse campo, o caso do tríplex é frágil. Bem diferente do sítio. O fã-clube mais ardoroso da família Lula da Silva levaria décadas para juntar tantos itens pessoais dentro da mesma cerca.

Porém, quando a condenação chegar de Atibaia, o PT vai continuar falando do tríplex. Há argumentos. E estes serão arrastados até as vésperas das eleições. Até lá, Lula manterá os 37% de intenções de voto? Terá mais? Terá menos? Quanto poderá transferir ao Jacques Wagner, que sai da Bahia, sozinho, com capital nacional de 5%? Desprezar esse potencial é, no mínimo, ingênuo.

Ainda: sinto muito mais vergonha dos patrícios que fizeram MBA no estrangeiro e conseguem dormir em paz, com ar-condicionado e umidificador, relativizando o governo Temer a favor das reformas que gostariam de ver, do que desses 37% que declaram voto em Lula e não dormem mais, incomodados pelo ronco que vem do âmago.

Sinto uma vergonha enorme de quem bateu panela para Dilma e desde ontem não deu um pio a respeito do vídeo da não-ministra Brasil, a escolhida do governo atual para a pasta do Trabalho, responsável por fazer valer a reforma trabalhista. O Presidento já avisou que “vai manter isso aí”. Pudera, com filha de kamikaze não se brinca.

E sinto ainda mais vergonha do Supremo, que vem decidindo de maneira muito diferente sobre casos tão parecidos.

Ainda assim, toda essa incerteza e incoerência me parece muito mais humana do que a exatidão que veio de Porto Alegre.

 
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2 Comments  comments 

2 Respostas

  1. Silvia Cervelli ni

    Se eu pudesse escrever tão bem quanto você eu escreveria exatamente esse texto! Muito obrigada! Abraços

    • Léo Coutinho

      Ah, muito obrigado pelo carinho, Silvia! Só vi hoje. Não me dou muito bem com o sistema do blog… Beijos