Blog do Léo Coutinho - O círculo de Gini
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O círculo de Gini

“Pelo dedo se conhece o gigante. Pelo pé, o elegante”, dizia um reclame da época em que os sapatos ainda circulavam.

Sapatos já foram um indicador de riqueza. Hoje são praticamente atestado de pobreza, junto com as novas calças sem furos e as camisas. Rico pra valer usa tênis, jeans, e camiseta. Tudo roto. E aquele que ainda tem uma gravata, guarde para o caso de um dia precisar esmolar bonito na Praça da Sé – onde o Suplicy quer meter um sobrenome: Dom Paulo Evaristo Arns. Sou contra. O palco de quase quinhentos anos de história de gigantes não pode ser reduzido ao gigante do século vinte.

As aparências tanto ajudam quanto atrapalham na identificação da riqueza. A revista Forbes, que faz a seleção mais conhecida, usa dados públicos. Mas quem é do jogo sabe que o ranking é limitado. Já descontando as malas daquele tipo que serve de mobília pros gedéis, tem muita grana não listada em bolsa por aí.

Se na era do big data ainda é complicado, calcule a dificuldade para classificar  a desigualdade em sua origem, anterior ao surgimento da história escrita.

Mas o biólogo Fernando Reinach nos contou, pelo Estadão, que recentemente os cientistas arranjaram um indicador para a riqueza não registrada nos livros. Mediram o tamanho das fundações de habitações em sítios arqueológicos ao redor do globo. A lógica é simples: se hoje em dia o tamanho da casa ainda aumenta conforme as posses, é razoável imaginar que sempre foi assim. Então sobre as metragens aferidas aplicaram o método de Gini: a escala vai de zero a um, ou de quando todas as casas têm o mesmo tamanho até quando uma só pessoa é dona de toda a riqueza.

Filosoficamente pode-se dizer que o índice de Gini deveria se chamar círculo de Gini, posto que, se toda riqueza fosse acumulada por uma só pessoa, esta seria pobre de novo, considerando que é impossível ser rico sozinho.

Porém voltemos à conclusão dos cientistas, para não atrasar demais a minha: os saltos de desigualdade na história coincidem com a chegada das novas tecnologias. Primeiro com a chegada da agricultura, fazendo dobrar o índice de Gini de 0,2 para 0,4 num prazo de mil anos, depois com a domesticação dos animais, cavalos, gado, pecuária enfim, chegando a 0,6 e permanecendo indecorosamente até hoje, apesar e em função da evolução humana.

Vale acrescentar que a agricultura levou cinco mil anos para atravessar o Atlântico. Hoje o que segura a globalização da tecnologia é a distância econômica, não geográfica. Mão de obra barata compensa financeiramente. Na Europa, até o temperamento típico de cada raça de vaca conta no preço, porque é o dono quem tira o leite. Os limites para defensivos na agricultura são muito mais baixos pelo mesmo motivo. No Brasil tanto faz, porque quem fica exposto ao coice e ao veneno é o peão.

Ainda assim há avanços. Depois de dez anos de negociação entre produtores rurais, trabalhadores e governo, a partir de 2018 a queima da palha da cana-de-açúcar será proibida no estado de São Paulo. É uma medida de proteção ao meio-ambiente que afeta diretamente o emprego no campo.

A palha era queimada na lavoura para facilitar a colheita manual. Hoje uma máquina faz o trabalho de pelo menos quarenta homens, e de quebra separa a palha da cana, que depois pode ser usada nas usinas termoelétricas, gerando energia com melhor controle sobre a emissão de gases nocivos à atmosfera.

O efeito sobre o emprego é brutal. Reportagem do Jornal Nacional mostrou que só a pequena cidade de Guariba-SP chegava a receber 9.500 trabalhadores na época da colheita. Hoje são 150. E logo será nenhum. A estrela do Agrishow em 2017 foi um trator autônomo que sequer tem cabine. Opera de forma remota, controlado por GPS.

Não imagine que este quadro se resume ao agronegócio. Esta realidade está até mais consolidada na indústria e, se você é advogado trabalhista, antes de se animar com as demissões em massa, dê um Google sobre aplicativos capazes de fazer o seu trabalho considerando toda a jurisprudência, desde a invenção do descanso semanal após dura e inspirada Criação até a última reforma. Isto é, ninguém está isento de ter que esmolar na Praça da Sé.

Ainda assim o agro é simbólico. Há 502 anos, quando Thomas More propôs a renda básica universal, enxergou na posse da terra a origem da desigualdade. Hoje sabemos que é a tecnologia, a informação. Sem uma e outra, a terra tem pouco ou nenhum valor.

Não por acaso, as maiores fortunas da atualidade são concentradas junto com tecnologia e informação. O lado bom é que por trás delas existem pessoas, e estas já perceberam que nesse caminho o círculo de Gini tente a se fechar. Os gigantes Marck Zuckerberg, Elon Musk, Peter Diamandis e Richard Branson recentemente defenderam a adoção da renda básica universal.

Em Davos, a preocupação dos ricos foi no mesmo sentido. Reportagens e relatórios mostraram que o mundo clama por uma agenda nova. Viveremos mais, teremos menos empregos, reformas e puxadinhos não tornarão qualquer Previdência sustentável, o modelo de produção e consumo chinês ou americano para o chamado pleno emprego, se adotado para sete bilhões de pessoas, acabaria com o meio-ambiente.

No Brasil, o ex-presidente Fernando Henrique Cardoso (PSDB) disse à Folha de São Paulo que, com a globalização, a renda básica passou de utopia à necessidade. E o vereador Eduardo Suplicy (PT) segue incansável. Acredito que, se concentrando no vento que sopra inflamando sua bandeira histórica, faria homenagem proporcional ao legado gigantesco de Dom Paulo, e muito melhor do que alterando o nome da Praça da Sé.

 
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