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Beija-Flor e Tuiuti

Não foi pouca gente que aproveitou a Quarta-feira de Cinzas para implicar com o enredo das escolas campeãs do carnaval carioca. Beija-Flor e Tuiuti meteram o dedo na ferida do que oficialmente estabelecido está. E há quem ache incoerência de uma e outra.

Da primeira, lembraram que é comandada por contraventor já condenado e irmão de prefeito. Tudo verdade. Mas não toda verdade. Anísio é um Estado na Baixada Fluminense. O Luis XIV de Nilópolis.

Já no Paraíso do Tuiuti, Marcelo Boto, um dos chefes do Comando Vermelho, seria Adão, Eva, serpente, maçã, anjo e folha de parreira.

Tanto um quanto outro ocupam espaços esquecidos pelo Estado.

Antes das escolas entrarem na Sapucaí o profeta Elio Gaspari recomendou ao Presidento que aproveitasse seus dias na base naval da Marambaia para refletir sobre o país que governa. E repetiu alguns dados históricos, os mesmos que há vinte anos ofertava ao veraneio de FFHH: Conhecida como “Viveiro” pela função de entreposto de escravos no século 19, a fazenda pertencia ao contrabandista José Joaquim Breves, um dos homens mais ricos do Brasil. Tinha seis mil escravos e de sua cerca pra dentro o governo não mandava.

O Rio de Janeiro continua igual. Um paraíso liberal. Cada qual manda no seu quadrado e o melhor retrato disto é o estacionamento. Você pode parar o carro impedindo o portão da casa alheia desde que deixe solto o freio de mão. Batata: Não haverá reclamação. Porque dono do carro pode ser bicheiro, traficante, miliciano, Gracie, diretor da TV Globo e/ou, mais provavelmente, funcionário público. No mínimo, será parente ou amigo de pelo menos um representante das categorias listadas.

Em isenção de impostos os cariocas também são pródigos. 60% dos imóveis não pagam IPTU. Isso no asfalto, ou onde há escritura. As favelas não estão na conta.

Por curiosidade telefonei ao gabinete do juiz Marcelo Bretas, responsável pela Lava Jato na Guanabara, para saber se o apartamento dele é isento de IPTU ou, se não, qual seria o valor do imposto.  A laje de 500 metros quadrados, com vista para o Pão de Açúcar, já era conhecida das revistas de decoração. Recentemente ganhou as páginas políticas e as redes sociais na polêmica do auxilio-moradia. O juiz Bretas é casado com uma juíza e cada um recebe R$ 4.377 para ajudar na despesa. A senhora que atendeu na central não o conhecia. Para descobrir o ramal, aguardou suas colegas concluírem assuntos urgentes, como namoricos do carnaval. O funcionário do gabinete respondeu que não tinha a informação e, se tivesse, não poderia dar por telefone. Sobre qual meio seria mais adequado, disse que melhor seria tratar direto com sua excelência numa entrevista – mas que ele só volta na segunda-feira. Depois da polêmica sobre o auxílio-moradia, o juiz Bretas botou o seguinte no twitter: “Informo que não usarei esta conta nos próximos meses. Teremos um ano de muito trabalho… Até”.

Na Justiça de São Paulo, Jessica Monteiro, ré primária, acusada de trafico de drogas, passou três dias presa numa cela suja de uma cadeia destinada a homens, acompanhada dos filhos – um de três anos e o outro na barriga, ao qual deu à luz já na penitenciária feminina, depois da audiência de custodia onde a promotora Ana Laura Ribeiro Teixeira Martins, também grávida, acompanhou a delegada Rosana Fernandes, pedindo a prisão de Jessica e do marido. O juiz Claudio Salvetti D’Angelo acatou o pedido.

Aos 24 anos, mãe de dois filhos, Jessica virou estatística. Agora faz parte dos 70% de mulheres presas no Brasil, acusadas de tráfico de drogas. Talvez tenha tido sorte. Outros números brasileiros falam de 60 mil assassinatos e 60 mil estupros por ano.

No próximo sábado acontece o desfile das campeãs no Rio. Dura mais ou menos sete horas, tempo suficiente para uma centena de homicídios e estupros no Brasil.

A quem não entendeu sobre o que os enredos tratam, espero ter ajudado.

 
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