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Não há escolta que chegue

Quem conta o conto é o governador Geraldo Alckmin. Haveria uma solenidade em um local com risco de manifestação e conflito. E o então governador Mario Covas foi advertido pelo ajudante de ordens: “Governador, a Casa Militar receia possíveis tumultos no evento desta tarde.” Covas fingia que não era com ele.

Uma hora depois volta o ajudante de ordens: “Governador, sobre o evento desta tarde, a Casa Militar insiste que há risco de conflito.” E o Covas na mesma, sem dar bola ao alerta.

Chegando perto do horário de saída vem o ajudante de ordens: “Governador, perdão pela repetição, mas a Casa Militar realmente vê risco de o senhor estar presente neste evento.” E o Covas: “Tenente, estamos saindo. Se o senhor estiver com medo, pode ficar no palácio.”

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Me lembrei da história lendo hoje sobre o decreto da escolta assinado pelo prefeito João Doria. Que patacoada… Já estou atravessado com os exageros na segurança do prefeito há um ano, quando vi sobre uma pracinha em frente a casa dele, por várias vezes, mais de uma viatura da Guarda Civil estacionadas, invariavelmente com os motores funcionando – prática comum e inexplicável em toda a cidade –, e não raro ocupando a calçada. Uma vez cheguei a reclamar e o guarda pediu desculpas. Menos mal. Ultimamente tem sido uma viatura comum, mas por muito tempo foi uma base comunitária móvel, o que para mim dobra o disparate de prioridades.

A novelinha do decreto está engraçada. O secretario de Governo Júlio Semeghini assumiu a responsabilidade, acrescentando que a ideia tinha sido da PM e que não haveria custos para o erário.

Logo em seguida vem a PM e diz que não tem nada com o caso e que “em hipótese alguma haverá incremento do efetivo de policiais militares a serviço da Prefeitura”.

Como se não bastasse, o prefeito vai às redes sociais e anuncia que vai reembolsar integralmente mês a mês o valor correspondente à escolta. Ora, reembolsar o quê se, conforme o secretario de Governo, não haveria custo? Até agora ninguém soube explicar como e quanto.

É uma atrás da outra. No final da semana passada o presidente da Cohab Edson Aparecido anunciou que serão vendidos aproximadamente 900 terrenos da empresa. A intenção seria usar o dinheiro para fazer habitação social. Ideia estapafúrdia, própria de quem tem dificuldades em fazer contas, sobretudo de interesse público.

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Os terrenos que a Cohab pretende vender são valorizados porque ficam perto de equipamentos públicos: transporte, saúde, educação, lazer etc. Vender para fazer, por exemplo, um shopping, condena a população a morar mais longe e o Estado a gastar mais e mais recursos para levar réplicas desses equipamentos até o fim de mundo a que condenou as pessoas. É o padrão do Minha Casa, Minha Vida… meu fim de mundo.

A proposta tem como base o populismo mais sorrateiro: faremos mais casas para mais pessoas. Como todo argumento populista, tem apelo, as pessoas se comovem. Mas continua sendo um absurdo, considerando todos os recursos envolvidos, isto é, tempo, dinheiro e sobretudo a qualidade de vida de quem é condenado a viver na caixa do chapéu.

Pensar em PPP, impondo na negociação os maiores ativos envolvidos, ou seja, área e equipamentos disponíveis, aparentemente não interessa.

Por falar nisso hoje houve tiroteio em Cidade de Deus, em plena intervenção militar no Rio de Janeiro. Assista aos filmes – o do Fernando Meirelles, homônimo, e o da Ana Maria Magalhães, chamado Affonso Eduardo Reidy – A Construção da Utopia.

Ao João, fica a dica: com esse tipo de política pública, que cria periferias cada vez mais isoladas, nem escolta do Exército resolve.

 
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