Blog do Léo Coutinho - Plano Alfredo Alberto ou a desprivatização do Facebook
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Plano Alfredo Alberto ou a desprivatização do Facebook

A semana foi puxada e minha sensação é que perdi algo, notadamente no caso do Facebook.

Não tenho procuração para defende-los e muito menos honorários, o que lamento profundamente. Mas se nada me escapou, quero dizer que não entendo qual é o bode.

Vejamos. Alguém criou um jogo que permitia coletar dados de milhões de usuários da rede. Problema detectado e corrigido lá em 2014.

Outra denúncia dá conta de que a um psicólogo o Facebook cedeu milhões de dados de usuários para fins de pesquisa científica, sob condição de sigilo, e que o cientista os teria vendido a uma agência de estratégia política para fins eleitorais. Posso ser ingênuo, mas considero nobre o gesto do Facebook e criminosa a ação do cientista.

Num plano mais distante e não menos importante, podemos entrar no papel das agências de consultoria estratégica. 1) A Cambridge Analytica não é a única que presta o serviço no mundo; 2) Igual a qualquer outra, se ultrapassou a fronteira da legalidade, deve responder à Justiça; 3) O mesmo padrão de dados utilizados pode ser arranjado por outras vias; 4) A venda de direcionamento de publicidade continua sendo ofertada e usada em meios diversos, dos pregoeiros ou homens-placa no centro da cidade ao Facebook, com índices maiores ou menores de precisão. 5) Contra isso ninguém objetou. Fecha parênteses.

Daí que não entendo a campanha delete o Facebook. Sinceramente não entendo. Não pelos motivos que estão postos.

Meu palpite sobre esses episódios vem dO Poderoso Chefão. Na terceira parte da trilogia Mike ganha prestígio e avança com o movimento de legalização da família Corleone. Ele sabe que dentro da lei será muito mais poderoso e perigoso. Chega a dizer ao sobrinho, refém da nostalgia mafiosa, que precisa de advogados, não de pistoleiros.

A saída da família Corleone da máfia é marcada por um jantar num hotel cinco estrelas. Seguindo a tradição, o encontro começa com generosa distribuição de presentes valiosos. Atento para o desconforto que a separação causará – a máfia é como um anzol, tanto na entrada quanto na saída –, Mike faz um cheque gordo para cada um dos chefes das demais famílias. Só que não basta.

Repleto de inveja e magoado com o abandono, Don Altobello, velho amigo dos Corleone e compadre de Don Vito, se alia a Joey Zasa e prepara a vendeta. Um helicóptero armado de metralhadora se aproxima do hotel e varre o salão com uma rajada interminável.

Para mim é exatamente o que está acontecendo com outro cara que atingiu vertiginoso nível de poder recentemente: o Zuckerberg, que não é Mark, quase Mike.

Não contente com todo poder que conseguiu controlando o Facebook, além de dezenas de bilhões de dólares e da tenra idade,  Mark sinalizou que não estava disposto a dividir. Recentemente, mesmo com todo o perigo das fakenews e da falta de fontes confiáveis de informação, ele restringiu o alcance dos órgão tradicionais de imprensa na rede. A reação mais franca que vi foi a da Folha de São Paulo, que manteve a conta mas parou de publicar. A que não vi, suspeito, está por trás dessa metralhadora que varre o Facebook. Na semana passada, em valor de mercado, eles perderam US$ 50 bilhões. Em imagem, muito mais.

A conclusão é que Mark foi inábil, extremamente inábil. Um amigo falou que também foi ganancioso. É verdade. Mas só a ganância não mata ninguém – muito pelo contrário, vide os bancos brasileiros. Com habilidade, a ganância engorda e faz crescer.

De qualquer maneira – e talvez com a esperança de receber algum pela consultoria – minha sugestão ao Zuck é a seguinte (chamemos de plano Alfredo Alberto): desprivatize e legue o Facebook à humanidade. Liquide sua posição, guarde alguns bilhões para novos projetos, benemerência, diversão e arte, e deixe a administração da firma acontecer via block-chain, paralela a um conselho de especialistas de categorias diversas, eleitos democraticamente. Assim você se livra do problema e entra bonito na história.

A quem achar que eu sou louco ou sonhador, recomendo que consulte duas biografias de gênios da humanidade: Alfred Nobel e Alberto Santos-Dummont.

 
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