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A salvação é pela paróquia

Contra a corrente, discordo dos que creem que o Brasil sofre uma guinada conservadora. Reconheço, porém, que há um fortalecimento reacionário, com muita gente saindo do armário. Ou, como diria o marechal Castello Branco, as vivandeiras de sempre estão alvoroçadas. No Brasil e alhures, com suas saudades respectivas. Algo natural e esperado em períodos de transformação ligeira, conforme a história ensina.

O Wall Street Journal publicou um artigo a respeito do cenário brasileiro, que está bom, porém superficial. Para ser entendido precisa de algumas pontuações entre os poderes Executivo e Legislativo.

No Executivo, eleição majoritária, o tal Bolsonaro assusta. Mas tem muito mais latido e baba raivosa do que risco de mordida. Fosse uma eleição indireta ele teria chance, porque a maioria do Congresso não reflete a maioria da população. Porém o voto é direto. E a eleição nacional ainda depende muito de capilaridade partidária (tempo de televisão incluído).

De onde vem minha impressão de que a maioria nos salvaria? Da TV Globo. Como já escrevi aqui, a Globo não cede à tentação de mudar a sociedade. Seus movimentos sempre foram e sempre serão retratos sociais, nunca empurrões. Tudo o que passa entre um e outro plim-plim é reflexo do que está nas ruas.

No Legislativo, eleição proporcional, está meu receio maior. Hoje a chamada bancada da Bíblia tem aproximadamente 150 membros, entre evangélicos e católicos, genuínos ou de ocasião, unidos em torno da chamada agenda conservadora, que mais exatamente é a agenda do atraso.

Esses caras não precisam de maioria para se eleger. Um nicho bem trabalhado basta. E nisso eles são pródigos. Tem palanque diário nos cultos, televisões, milhares de rádios e vastos recursos não contabilizados, fruto do dízimo.

Minha perspectiva é que dos 150 eles pulem para quase 200 em 2019. E com o tempo de TV que terão por diante, em 2022 serão 250/300, o que significa maioria. Teremos então uma nova Constituinte, pautada pelo sentimento cristão de conveniência. Será o fim. Porque quem quer que esteja na Presidência, terá que se dobrar a eles para governar.

O único caminho que vejo é transformar toda a eleição em majoritária. E isso acontece com o voto distrital, onde cada paróquia do país elege seu representante, que deve ser morador local, estar ao alcance dos seus eleitores e vice-versa, o que diminui a influência do dinheiro na campanha. Quer dizer, a solução é pela paróquia sim, mas com o rebanho mandando no pastor, não o inverso.

Para chegar lá teremos um passo importante nesta eleição. E se engana que é pela renovação dos deputados. Explico: os velhos caciques, donos partidos, currais, rebanhos, serão reeleitos. Sem voto distrital não tem por onde expulsá-los. O voto de opinião, exausto, desatento, pode cair no conto da renovação. Erro pueril, que pode tirar o mandato de bons quadros com experiência, agenda programática e casca dura para enfrentar as velhas forças. Os calouros que chegarem, provavelmente poucos, até descobrirem qual dos três regimentos seguir, até encontrarem o guichê de protocolo, já estarão perto do fim do mandato e altamente frustrados.

 
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