Blog do Léo Coutinho - A única novidade no caso Facebook
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A única novidade no caso Facebook

Recebi hoje, pelo Canal Meio, uma nota sobre o TED2018 citando um trecho da exposição do Jaron Lenier, que segundo a Wikipedia é músico, cientista da computação e percussor da realidade virtual. Com todo respeito e sob o risco de estar sendo injusto, posto que vou comentar sobre uma nota, diria que também é doutor em realidade paralela.

Eis o que o Meio destacou: “Nós cometemos um erro em especial no início. A cultura digital nascente acreditava que tudo na internet deveria ser público, gratuito. Ao mesmo tempo, amávamos nossos empreendedores de tecnologia. Amávamos este mito nietzchiano do homem de tecnologia que transforma o universo. Como celebrar empreendedorismo se tudo é gratuito? Um modelo baseado em publicidade. Daí que o Google nasceu gratuito, o Facebook nasceu gratuito. Os anúncios no princípio eram para seu dentista local ou algo assim. Só que os algoritmos melhoram. E o que começou como propaganda não pode mais ser chamado de propaganda. Hoje é modificação de comportamento. Não chamo mais essas coisas de redes sociais. São impérios de modificação de comportamento. Esta é uma tragédia global nascida de um gigantesco erro. E me permitam acrescentar outra camada. No behaviorismo, você oferece a uma criatura, um rato ou uma pessoa, pequenos presentes ou punições dependendo do que fazem. Nas redes, punição social e prêmios sociais ocupam esta função. Você fica todo feliz — ‘alguém gostou das minhas coisas’. Os consumidores destes impérios de modificação de comportamento recebem o retorno de tudo o que fazem, percebem o que funciona, fazem mais daquilo. E respondem mais a emoções negativas, porque estas despertam reações mais rápidas. Assim, até os mais bem-intencionados alimentam a negatividade: os paranóicos, os cínicos, os niilistas. Estas são as vozes amplificadas pelo sistema. E não dá para pagar a estas empresas para que façam o mundo melhor ou consertem a democracia pois é mais fácil destruir do que construir. Este é o dilema no qual nos encontramos.”

Agora me pergunto: qual é a novidade? O rádio por acaso nasceu por assinatura? E a TV? Ou quantos jornais e boletins são distribuídos gratuitamente? O Meio (excelente) incluído. E o TED, seria possível por outro modelo?

Além da história da suposta gratuidade (que nunca existiu ou, se existiu, foi por um breve período na Grécia, com Sócrates fazendo de propósito o serviço que rendia fortunas aos sofistas, até ser condenado à pena de morte), o palestrante fala em “impérios de modificação de comportamento”. Ora, o quê é Hollywood? E as igrejas? E as guerras e colonizações?

Se Google, Facebook e similares têm alguma culpa, é por competência. Atingiram um nível sempre buscado por todo e qualquer outro negócio. Do marreteiro que vende água no calor e guarda-chuva na tempestade, passando pelos doces expostos no balcão da padaria, chegando aos nossos hábitos de consumo via cartão de crédito, todos os dados sempre foram compilados, estudados e comercializados. A favor do Google e do Facebook podemos dizer que pelo menos são ferramentas eficientes a ponto de muita gente sequer lembrar como era a vida antes deles.

+ Plano Alfredo Alberto ou a desprivatização do Facebook

Quem nutre esperança em vence-los no tapetão, isto é, na justiça ou na política, recomendo deslogar e procurar um bom livro. Ler é sempre bom e, de quebra, economiza a paciência alheia. O Vale do Silício tem uma tropa de lobistas forte e grande o suficiente para enfrentar os exércitos do lobby adversário. E se a tentativa for travar uma batalha de comunicação… Preciso comentar?

Veja pelo lado bom, freguesa. Zuck provavelmente lê esta página e acenou para a sociedade com uma ideia aqui sugerida, conforme segue: Aspas dele na Folha: “A longo prazo o que realmente gostaria de ter é um processo em que as pessoas no Facebook tomem a primeira decisão, com base nos padrões da comunidade, e então as pessoas possam obter uma segunda opinião, num tribunal de recursos.”

E o que eu sugeri: “De qualquer maneira – e talvez com a esperança de receber algum pela consultoria – minha sugestão ao Zuck é a seguinte (chamemos de plano Alfredo Alberto): desprivatize e legue o Facebook à humanidade. Liquide sua posição, guarde alguns bilhões para novos projetos, benemerência, diversão e arte, e deixe a administração da firma acontecer via block-chain, paralela a um conselho de especialistas de categorias diversas, eleitos democraticamente. Assim você se livra do problema e entra bonito na história.”

Pode ser que ele esteja jogando para a torcida. Mas nunca vi alguém da velha guarda minimamente cogitar algo do gênero. Novidade mesmo, se há, é  esta.

 
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