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Sobre tucanos e gaviões

Impossível não usar a imagem da paixão pelo futebol na observação da crônica político-judiciária dos últimos dez dias.

O torcedor apaixonado, diante de uma mão na bola, um pênalti que não houve, um erro do juiz, toma posição contra ou a favor de acordo com seu interesse no resultado.

Sabe-se que árbitro de futebol não é juiz e vice-versa. Mas assim sempre foram chamados pelas torcidas. E agora vemos o inverso nos comentários das gerais sobre o Supremo Tribunal Federal, com juízes sendo tradados como árbitros. Só falta o Galvão Bueno estrear um quadro comentando as sessões Direto do Plenário pontuando cada voto com o célebre: “Pode isso, Arnaldo?”

Outro dia elogiei um ministro, a quem prezo também pelo humor, e tive que ver um amigo esclarecido se indignar: “Mas ele é ácido e primo do Collor!” Pode isso, Arnaldo?

Também foi divertido acompanhar o comportamento da arquibancada nos momentos que antecederam o julgamento do HC do Lula. Até a configuração da maioria, a corte não valia nada para geral. (Gente tida como sensata chegou a festejar o tuíte d’O General que soou como ameaça velada de botar os tanques em campo para arbitrar a partida.)

Com a decisão antecipada por pontos, a arquibancada se dividiu, exaltando ou execrando os juízes como se fossem craques envergando não togas, mas o uniforme do seu clube do coração. Porém não sem antes vaiarem o advogado que exercia o direito (sagrado) de defesa do seu cliente nos acréscimos. Sobrou até para a Carminha quando, ainda que não precisasse, consultou os bandeirinhas sobre apitar ou não.

Passados dez dias, a parte que execrava o Plenário que “condenou” Lula, viu Aécio Neves virar réu. Curiosamente, festejaram a sabedoria nos 5 X 0 da Primeira Turma. E previsivelmente ninguém, absolutamente ninguém, se levantou para xingar o juiz. Aparentemente o Brasil inteiro seguiu o relator. Ele mesmo, o “primo do Collor”.

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Em nota, o senador Aécio Neves disse que agora terá a chance de se defender. Resta saber quem o proibiu durante esse tempo todo.

Muito pelo contrário, oportunidade não faltou. Quando se afastou da presidência do PSDB, seu substituto, Tasso Jereissati, acenou com um mea-culpa histórico. Foi depenado. Depois tivemos a sessão em que o Senado decidiu sobre seu afastamento, e Aécio preferiu se aliar ao time da várzea, com Jucá, Renan, Jader e outros entrando de sola, por trás, sem receio das fraturas institucionais, como se elas servissem para “estancar a sangria”.

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O presidente do partido, ex-governador Geraldo Alckmin, provocado, disse que a Justiça não tem cor e vale para todos. Está certo. Mas é pouco. Como presidente do PSDB faltou dizer como fica a situação do correligionário.

E então chegamos aonde eu queria. Esta freguesia, por gentileza, releve a segunda imagem batida. Mas não tem jeito: o silêncio no vestiário tucano é ensurdecedor. Ninguém, de novo, absolutamente ninguém do PSDB foi abraçar o companheiro em solidariedade. Sequer no vestiário, longe dos olhos da imprensa e da torcida, consta um reles afago. Aécio está mais por baixo que o Fred em véspera de delação. E não só ele.

O que os tucanos nunca entenderam é que no Brasil só existe uma torcida maior que a do Corinthians, que é a torcida anti-Corinthians. Para o PT vale o mesmo.

Segundo o Datafolha de 31 de janeiro, dos brasileiros 19% preferem o PT, 5% o MDB e 3% o PSDB. Pelo Ibope de 13 de março o PT confirma os 19% e MDB e PSDB sobem para sete e seis por cento, respectivamente. Tudo fresquinho, de 2018, com quatro anos de Lava Jato e a seleção histórica no banco – dos réus.

Quer dizer, o erro crasso tucano foi acreditar que ser contra o PT é ter posição ou ser a favor de uma agenda. Algo tão cretino quanto torcer para a Argentina contra o Corinthians. Serve para catimbar os coleguinhas e só.  Daí vem esse vácuo político. Aos tucanos, fica a dica: passarinho não acompanha gavião.

Para encerrar, um pio repetido para João Doria, que ainda acalanta a sanha de aterrissar em Brasília, mesmo tendo decolado anteontem e ainda por cima  molhando as asas de quem lhe ensinou voar. De tão acelerado, em quinze meses de vida pública você já é réu. Aécio e Lula levaram décadas para alcançar este feito. E só um ganhou abraço depois de preso.

 
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