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Ninguém está seguro

O largo do Paiçandu, no centro de São Paulo, cenário do incêndio e do desabamento do prédio na manhã deste Primeiro de Maio, pode ser considerado a segunda periferia da história da cidade.

A primeira foi a Praça Antonio Prado, ainda no período colonial. Era o endereço da igreja dos pretos, “longe” da Sé, marginal do rio Anhangabaú.

Então a cidade cresceu, precisou do delta histórico inteiro, e obviamente os pretos foram expulsos para o lado de lá do rio. E de lá para além dos outros rios, cada vez mais longe e mais longe. Só a igreja – e o nome que “homenageia” os homens pretos permaneceu.

Com o Minhocão, a especulação e a decadência da região, aquele princípio da São João, provavelmente a avenida mais bonita da cidade, ou pelo menos uma das mais ajeitadas e felizes em urbanismo e arquitetura, voltou às origens, voltou a ser periferia.

Mas de uns anos para cá ensaiava algum avanço. A Galeria do Rock voltou a ser pujante, o Centro Cultural dos Correios e a Praça das Artes foram entregues, uns velhos hotéis receberam retrofit para habitação de incorporadores visionários que lutam com abnegação olhando além da nossa miséria social, da mediocridade política, do egoísmo do mercado.

Um pouco ali adiante, depois da Ipiranga, há uns dez anos a prefeitura entregou um prédio para abrigar velhos artistas. Roberto Luna, baluarte da música e da boemia, mora lá.

O todo, é óbvio, não poderia avançar sem o básico para qualquer lugar: gente morando nele, energia vital sem a qual qualquer coisa se degrada. E os movimentos sociais que se dedicam ao tema, trataram de ocupar o prédio vazio, que desesperadamente pedia por esta energia.

Nos conta o jornalista Raul Juste Lores, autor da série de reportagens São Paulo Ociosa, que em 2015 o Governo Federal, dono do imóvel através da Caixa Econômica Federal, tentou um leilão. Era coisa de 21 milhões de reais para levar aquela joia, e outros muitos milhões para ajeitar. Que fossem mais vinte, ou mais quarenta. Por sessenta milhões de reais não se faz nada parecido hoje em dia. No máximo, compra-se um aviãozinho a jato. E mesmo assim o mercado não se interessou. E nem ninguém na Caixa pensou em fazer ali um Minha Casa Minha Vida.

A prefeitura, por sua vez, aguardou a tragédia acontecer. A bem da verdade, houve reuniões com o grupo que ocupava o vazio. Mas elas não mudam o resultado. E o ex-prefeito, o breve, que há menos de um mês governava a cidade, ocupado com sua campanha eleitoral sem fim, sequer uma nota de solidariedade ou mea-culpa publicou até agora.

O que poderia ter feito a prefeitura? Usar os mecanismos legais de convencimento do mercado para transformar a cidade. Estima-se que tenhamos hoje mais imóveis desocupados do que gente desabrigada. E o IPTU progressivo é a ferramenta que faz o mercado ser mercado, isto é, fazendo galopar o valor do IPTU de imóveis desocupados, ajusta o preço de venda ou aluguel à realidade, botando de parte o que o proprietário acha que vale. Ocorre que, desde que João Doria assumiu, a gestão municipal prevarica e não aplica a lei – palavra dos servidores responsáveis  pelo tema.

A bola de fogo que matou pelo menos uma pessoa e engoliu a igreja dos homens pretos tem muitos responsáveis. Que alcance todos eles, nem que seja pela consciência. E se marcar como seguro aqui Facebook, além de escárnio, é ilusão. Ninguém está seguro diante desta realidade.

(A Galeria do Rock está servindo como ponto de doação do que puder ser: água, comida, roupas.)

 
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2 Comments  comments 

2 Respostas

  1. Gabriel

    Léo, boa noite. Perante as imagens dessa tragédia, uma imagem da propaganda da Caracu foi revelada no prédio vizinho. A propaganda estava escondida, acredito eu, desde a construção do edifício da tragédia. Você sabe me dizer contar um pouco mais sobre esse slogan?

    • Léo Coutinho

      Gabriel, Beber Caracu é Beber Saúde, cá na minha casa, é atribuído ao meu avô Romeu Montoro, que trabalhou na comunicação da cervejaria e era muito amigo dos proprietários.