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O México ensina ou a fogueira vai te pegar

Favoritíssimo na corrida presidencial mexicana, o candidato Lopez Obrador, com 48% das intenções de voto num país onde não há segundo turno, está em pé de guerra com os empresários. Literalmente diz o seguinte: “Eles não querem deixar de roubar”, “acham que são donos do México”. Aos principais bilionários, reservou esta lisonja: “traficantes de influência que se beneficiam da corrupção.”

As entidades patronais reagiram. Alçado à porta-voz, Alejandro Ramirez, executivo da Cinépolis, maior firma de cinemas mexicana, disse à Reuters que “com essas acusações e esse discurso agressivo, Obrador está minando a confiança no setor privado”, e que “confiança é o que impulsiona investimentos”.

Você pode aprender com este cenário, freguesa. As mesmas aspas acima hoje são usadas no Brasil como combustível para o incêndio do que nos acostumamos a chamar de “classe política”. De um lado gente botando lenha e do outro alguns tentando salvar a própria pele. Em vão.

O termo “classe política” é curioso. Nos serve confortavelmente, como se “os políticos” fossem alienígenas que tomaram de assalto o poder, e não representantes eleitos pelo voto de cada um de nós.

Mais curioso é ver a falta de horizonte dos empresários que abanam a brasa. Principalmente os grupos que se valem das cinzas para tentar eleger representantes e controlar seus mandatos, botando dinheiro e usando um discurso moralista que passa ao largo da autocrítica.

A ingenuidade é evidente. Por óbvio, ninguém poderá conter o fogo. Igual acontece no México, a fogueira vai queimar todo mundo. Palha seca é o que não falta: imprensa desacreditada, à míngua e fakenews prosperando; acadêmicos e especialistas ridicularizados enquanto palestrantes de autoajuda faturam alto em eventos corporativos; artistas, escolas e professores patrulhados; igrejas sob desconfiança e intolerância religiosa; Judiciário acuado pelos tambores (e panelas); militares alvoroçados desrespeitando as próprias regras e hierarquia.

E o setor privado segue metendo lenha. Parecem certos de que sua pureza e honestidade serão reconhecidas. Como se fosse possível entender um extrato bancário, seus juros e taxas ou os lucros anunciados pela meia-dúzia de cinco bancos que controlam 85% do setor. Como se as operadoras de telecomunicações não fossem campeãs de reclamações no Procon. Como se não houvesse quatorze milhões de desempregados e outras dezenas de milhões de pessoas com o nome sujo. Como se fosse possível haver sociedade enquanto os seis homens mais ricos do país detém o mesmo patrimônio que os cem milhões mais pobres – boa parte dele guardada em paraísos fiscais distantes da costa.

A chance de surgir um Lopez “Nero” Obrador neste ambiente é altíssima, quase certa. E com o mínimo de habilidade fazer a inquisição geral. Para tanto, lhe bastará mostrar como e por que a concentração de renda existe. Alguém falou em corrupção?

O México ensina que responder dizendo que investimento é necessário não vai funcionar. Relativizar perguntando se veio antes o ovo ou a galinha também não. E muito menos dizer que é legal. O combustível é moral e, diferente da lei, vale para todos.

 
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