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1º de Abril, dia da verdade

Dizem na psicologia que o luto mais difícil é aquele não verificado. A dúvida de quem ama é natural. Quem fica e não vela nem enterra seus mortos tende a nutrir a esperança do reencontro, dificultando a aceitação da morte e perpetuando a dor. Como no caso de um avião que some com um ente querido a bordo.

Mais distante mas ainda relevante é a figura jurídica. Sem um atestado de óbito, o cônjuge que fica nunca oficializa a viuvez. Permanece casado com a angústia.

Piorar um quadro assim pode parecer impossível, mas amargamente não é. Se a causa da morte for intencional e não acidental, vai doer mais.

E ainda dá para piorar. Como? Quando o algoz é aquele que deveria proteger. Um pai que mata suas crianças. Um filho que mata seus velhos. Ou o Estado que mata seus cidadãos.

Misturando os casos podemos, com esforço, imaginar a dor dos que perderam seus entes para o despotismo. Direto ao ponto, as pessoas que não têm notícia de onde foram estão seus parentes e amigos “desaparecidos” durante a ditadura militar.

Além de não velarem nem enterrarem seus mortos, somam à saudade da presença o terror de supor que os assassinos foram as mais altas autoridades do país, jamais identificadas como tais e muito menos processadas.

Ontem as suposições foram enterradas. Um documento sigiloso datado de 1974 teve as tarjas pretas retiradas pelo Departamento de Estado dos Estados Unidos. Nele, o chefe da CIA William Colby aponta o general Ernesto Geisel como mandante da política de “execuções sumárias”, ou mais exatamente mandante de assassinatos. Geisel teria orientado o então chefe do SNI, general João Batista Figueiredo, a mandar matar adversários da ditadura. Geisel e Figueiredo foram os últimos ditadores que presidiram o Brasil.

Trecho: “’Em 1º de abril, o presidente Geisel disse ao general Figueiredo que a política deveria continuar, mas que grandes precauções deveriam ser tomadas para assegurar que apenas subversivos perigosos sejam executados. O presidente e o general Figueiredo concordaram que quando o CIE apreende uma pessoa que pode estar nessa categoria, o chefe do CIE vai consultar o general Figueiredo, cuja aprovação deve ser dada antes de a pessoa ser executada’, diz o memorando de Colby.”

A história da ditadura militar no Brasil conviveu com um debate marginal sobre a data de inauguração, 31 de Março ou Primeiro de Abril. A psicopatia ainda vigente entre defensores do despotismo preferia o 31/3 por motivos óbvios. Se cabia dúvida sobre um dia da mentira como marca irrefutável da ditadura militar, não cabe mais. O Primeiro de Abril agora também é o dia da verdade.

O Comando do Exército, porém, é brasileiro e não desiste nunca. No lugar de uma autocrítica e de um esforço para identificar as vítimas, informou em nota, que os documentos sigilosos relativos ao período em questão e que “eventualmente pudessem comprovar a veracidade dos fatos narrados foram destruídos, de acordo com as normas existentes à época –Regulamento para Salvaguarda de Assuntos Sigilosos (RSAS)– em suas diferentes edições”.

 
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