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Um pacto pela empresa-Estado

A narrativa na vidada do século era o papel das empresas na relação com a sociedade. Assustadas com o levante de Seattle, em 1999, onde ativistas de frentes diversas reuniram dezenas de milhares de pessoas contra o encontro da Organização Mundial do Comércio, as multinacionais resolveram se sacudir e combinar uma agenda comum visando responsabilidade social.

Todo mundo correu para ajudar. A ONU, liderada pelo Kofi Annan, chegou a fazer um site para servir como ágora universal da iniciativa, que reunia perto de cinquenta corporações e bancos multinacionais, federações trabalhistas e outras entidades da sociedade civil. Todos juntos pelo Pacto Global (UN Global Compact).

Resumindo, a ideia era estender à governança corporativa os princípios universais de direitos humanos que regem – ou deveriam reger – os governos no Estado Democrático de Direito. A lógica era óbvia: sendo maiores e mais poderosas que grande parte das nações, as empresas deveriam se comportar como estados, oferecendo transparência e permitindo a participação da sociedade em suas decisões de conselhos deliberativos. Em contrapartida, participariam dos fóruns de chefes de Estado. Bill Clinton rodou o globo com este discurso. Aparentemente a maioria concordava e um circulo virtuoso parecia prestes encontrar seu modelo de movimento.

Calça jeans e renda básica

Daí, em Onze de Setembro de 2001, dois aviões entraram no WTC e mataram milhares de pessoas. Desde então a agenda mundial se voltou contra o terrorismo, deixando o mercado livre para continuar como bem entendesse.

Em 2008 tudo explodiu. A chamada crise dos subprimes quebrou o gigante Lehman Brothers, grife de investimento financeiro desde 1850, causando efeito dominó na economia. As agências de crédito imobiliário tiveram que ser reestatizadas, no maior socorro já prestado pelo governo estadunidense em toda a história. Coisa de US$ 200 bilhões. Na Europa, vários países somados pingaram US$ 1,5 trilhão para manter a economia respirando.

Em 2009, gestores de várias das empresas socorridas já recebiam bônus milionários por “bom desempenho”. Muitos dos países, no entanto, ainda não tiveram alta e seguem respirando por aparelhos ou, com sorte, em austera dieta imposta pelo “mercado”.

O círculo de Gini

Neste momento é maio de 2018. Seria a entrada do Pacto Global na fase adulta. Mas o que temos é pouco ou nada além de ensaios de laboratório. No contexto geral a coisa piorou. A concentração de poder das empresas aumentou muito. Em 2016, das cem instituições que mais arrecadaram, 69 são empresas e 31 são países. Oito pessoas têm o mesmo dinheiro que a metade mais pobre da população mundial. A participação social permanece no plano das relações públicas. E curiosamente, odiado ou, mais grave, ignorado no mundo todo, é o universo político.

Com o avanço das tecnologias viveremos mais e trabalharemos menos, diminuindo as contribuições sociais e concentrando ainda mais a renda. Assim, o Estado de bem-estar social tende a colapsar. Sem cidadãos não pode haver consumidores, e o colapso atingirá a economia. Por outro lado, o modelo de produção e consumo da China e dos Estados Unidos, ampliado para sete bilhões de pessoas, colapsaria o meio-ambiente.

Por falta de responsabilidade e visão na virada do século, dez anos depois a bolha imobiliária estourou e deu origem a diversas bolhas sociais, com cada um tentando salvar o seu quintal. A apatia política cresce e no que sobra grassa o populismo, sempre flertando com o despotismo.

Um pacto global para valer, envolvendo governos, empresas e sociedade na solução do problema é urgente. Substituir o dilema sobre privatização ou estatização por um modelo universal de empresas-Estado.

 
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