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Química, sociologia e a explosão iminente – ou Parente, ouça o Montoro

Combustível espalhado havia. Muita palha seca por aí. Faltava uma faísca. Ou um gatilho. E foi justamente o que o governo fez: criou um gatilho para reajuste de preços de combustíveis na Petrobrás. Quer dizer, misturou gatilho com combustível. Deu no que deu.

Só no ano passado foram mais de cem aumentos no preço dos combustíveis. Desses mistérios inexplicáveis, a população aguentou quieta. Mas bastou o dólar disparar – Argentina, taxa de juros nos EUA etc – para deflagrar a revolta.

Como de costume, quem depende diretamente do preço se levantou antes: os caminhoneiros. E como o Brasil depende diretamente dos caminhoneiros, o país parou. Em três dias o desabastecimento colapsou as cidades. Falta gasolina nos postos, aeroportos e até alimentos e remédios em algumas praças. No campo, leite literalmente derramado por falta de distribuição e produção proteína ameaçada por falta de insumos (a ração que não chega). Na indústria, todas as montadoras pararam de produzir. Exportação, nem pensar. E até a cerveja está ameaçada.

Mas calma, freguesa, porque deve piorar. O que há nas ruas é efeito de quem depende do óleo diesel, que tem mais força porém menor potencial explosivo. Com o acordo feito entre o governo e os caminhoneiros, basicamente o imposto sobre o diesel deve cair e os reajustes serem anunciados com um prazo maior.

Deve piorar porque, além do acordo não garantir o fim do incêndio, a hipótese de normalização do abastecimento vai manter o gatilho sobre a gasolina, combustível que, apesar de gerar menos força, tem maior poder de explosão. Como a chance do dólar se acalmar é pequena ou quase nula, o preço vai continuar subindo. E aqui a química encontra a sociologia: donos de automóveis, motoboys, taxistas, uberistas vão explodir.

Enquanto isso as torcidas organizadas do jogo político insistem em direita e esquerda, como se ainda houvesse um meio de campo em Berlim. Ficam na briga eterna entre Estado e mercado, como se a convivência fosse impossível. Não é. A saída é pela terceira via, ou como dizia o Franco Montoro: “nem o punho cerrado da luta de classes, nem os braços cruzados da indiferença burguesa, mas os braços abertos da solidariedade cristã.”

Traduzindo, Parente caríssimo, a lógica cega do gatilho de preços num país que depende fundamentalmente dos caminhões, funcionou tanto quanto os punhos cerrados da luta de classes que quebrou a Petrobrás na primeira metade desta década. É preciso um meio-termo. Ouça o Montoro. Aliás, se ele tivesse sido ouvido, teríamos hidrovias e ferrovias, dependendo menos de ferrovias e petróleo.

 
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