Blog do Léo Coutinho - De repente não mais que de repente
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De repente não mais que de repente

Crônica publicada no Esquina/Estadão em 30/05/2018

De repente não mais que de repente, você precisa aumentar a autonomia do seu carro, seja em tempo de funcionamento do motor para superar um congestionamento ou na distância que ele é capaz de percorrer. Ainda: considere que não é só você que precisa de mais autonomia, mas a cidade inteira.

Se o seu carro é um Ford, poderá recorrer à grande inovação da indústria automobilística tradicional: a linha de montagem do velho Henry. Em fila, todos os carros da cidade teriam os tanques de combustível substituídos por um maior. Isso hipoteticamente, porque além de fabricar tanques maiores, a concepção de cada carro teria que ser alterada. Impossível? Não. Mas altamente improvável.

Ao passo que, se você tem um Tesla, bastaria atualizar o programa de computador que limita o uso da bateria do carro elétrico, do mesmo jeito que faz o seu telefone esperto, pela internet e em tempo real. Isto é, o carro, ou o telefone, enquanto hardware, continuam iguais. O que muda é o software.

Sei que parece filme de ficção-científica, mas é a realidade e já aconteceu.

Em setembro de 2017 o furação Irma se aproximava da Flórida e a orientação das autoridades era pela evacuação do estado. Com efeito, supermercados sofreram com desabastecimento e nos postos de gasolina se formaram filas imensas, repletas de aflição – menos para os proprietários dos Tesla, que receberam online o upgrade de autonomia e puderam zarpar com mais tranquilidade.

A relação com a crise brasileira de desabastecimento provocada pela paralização dos caminhoneiros é evidente. Mas temos autonomia para ir além dela.

++Burrice humana e inteligência artificial

O upgrade que “aumentou o tanque” de cada Tesla não está restrito às baterias. Com um comando semelhante a companhia já poderia transformar toda sua frota em carros 100% autônomos.

Hoje, por meio de câmeras e sensores instalados ao redor do veículo, os Tesla são capazes de decidir qual é o melhor momento para trocar de pista (bastando ao motorista acionar a seta e esperar), ou manter uma distância segura do carro à frente. O mesmo equipamento pode fornecer informações para que o carro decida sozinho o melhor momento para uma ultrapassagem em via de duas mãos. Porém o software ainda não permite que o faça, por não estar preparado para decisões éticas. Quer dizer, tecnologia para carros autônomos já temos, o que falta é o debate filosófico, não só para os carros mas em torno de toda a inteligência artificial e internet das coisas.

Ellon Musk, dono da Tesla, sabe disso e deve estar atento. O empresário e futurologista sul-africano passou grande parte dos seus verdes anos dentro de uma biblioteca. Depois de levar uma surra dos colegas de escola, fez das estantes de livros sua trincheira e de lá começou a pensar um mundo diferente. Nunca mais parou.

Um dos indícios mais consistentes da importância que Musk dá à filosofia é o modo de apresentar suas inovações à sociedade. Ele sabe que os nossos desejos são antigos, enraizados, e que nada avança sem a preservação do que já havia. Assim, o primeiro apelo para a compra de um Tesla é a beleza. O segundo é o desempenho. Tecnologia, sustentabilidade e preço contam, mas são secundários.

Ou seja, o que nos faz desejar um Tesla não é diferente do que nos faz desejar uma Ferrari. Platão já falava disso e é claro que Enzo Ferrari, Battista Pininfarina, Ferdinand Porsche, o próprio Ellon Musk e tantos outros, como Steve Jobs na Apple, anotaram.

O desempenho também merece um destaque. O Tesla sedã acelera de 0-100 Km/h em quatro segundos, tempo equivalente ao de uma Ferrari. E o novo Roadster, modelo esporte, precisará de apenas dois segundos para alcançar a mesma velocidade.

Se parece contraditório, em pleno 2018, contar a história de uma indústria automobilística olhando para o futuro, a explicação também é filosófica. Contraditar é essencial à evolução. Através dos carros e apelos à natureza humana mais profunda, a Tesla avança em diversos outros campos.

Energia elétrica, por exemplo. Carros elétricos dependem dela. E a narrativa de sustentabilidade não para de pé quando lembramos que 60% da eletricidade produzida no mundo é fruto da queima de combustíveis fósseis. O que fez a Tesla? Criou a Solar City, fabricante de placas que captam energia da luz do sol. Mas como convencer as pessoas a aderirem ao modelo de investimento ainda alto? Eles financiam a aquisição das placas e o consumidor só paga quando começa usar, abatendo do custo que tinha com a transmissão convencional.

Armazenar energia era outro problema. Como estocar o suficiente para pelo menos três dias de consumo de uma família? A resposta, de novo, veio com a beleza. PowerWall é uma bateria grande cujo design funciona como uma mesa de centro para a sala, bela e funcional. Você literalmente apoia os pés sobre o estoque de energia.

Túneis urbanos para transporte individual é outra contradição evidente. E a Tesla está trabalhando nisso com o Loop. O apelo é poder viajar em alta velocidade num carro particular e assim chamar a atenção do mercado para novas tecnologias de perfuração, o que deu origem à outra empresa, a Boring Company, que basicamente faz um tatuzão mais barato. O projeto de sessenta páginas foi publicado com autorização para ser replicado sem custo de royalties. Deu certo. Na Inglaterra, a Virgin investiu cerca de US$ 300 milhões na Hiper Loop One. E a americana HyperLoop TT montou um centro de estudos em Contagem, com apoio do governo do estado de Minas Gerais. O mercado final, é claro, será o metrô, coletivo, mas o convencimento é pelo individual.

O modo de pensar do Ellon Musk parece claro. Trabalha sobre os nossos sonhos e desejos para desenvolver soluções. Ultimamente, pela Space X, primeira companhia privada a botar um foguete no Espaço, a Tesla tem feito entregas em estações da NASA que estão em órbita. Depois de inúmeros fracassos, conseguiu chegar a um modelo de foguete reutilizável e cobra US$ 90 milhões pelo mesmo frete que a tradicional United Launch Alliance faz por US$ 380 milhões. Mas fique tranquilo porque, antes de te levar para a lua, ele quer você vá a Paris em trinta minutos desde São Paulo, voando a 24 mil Km/h.

Prepare-se. Como cantou o Vinicius de Moraes, que parecia estar ao mesmo tempo em Washington, Teresópolis, São Paulo, Itapuã e Paris, do jeito que a coisa vai, será de repente não mais que de repente. Sempre lembrando que beleza é fundamental.

Léo Coutinho, escritor e jornalista, é consultor político e estudante de Filosofia na Universidade Presbiteriana Mackenzie

 

 
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