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Senhores e escravos

O episódio sobre Hegel na série Merlí é o mais animado. Ou picante, dependendo do ponto de vista. E igual a todos os outros este consegue introduzir o pensamento dos filósofos apresentando os conflitos entre os personagens. Talvez coubesse uma música do Caetano Veloso, nego liberado que já lamentou em sua obra estar condenado a fazer canções porque só seria possível filosofar em alemão. Mas está bom assim.

Misturando as duas coisas, digo, o pensamento do Hegel e o sexo, e acrescentando a definição célebre do Romero Jucá sobre o universo político que escolheu, cultiva e batizou de suruba, podemos avançar nesta crônica.

+Impichado e excomungado, Tucanos expulsos da suruba, Exata e precisamente

Na Fenomenologia do Espírito, Hegel apresenta a dialética do Senhor e do Escravo. E afirma que, para ser, o primeiro depende do segundo, mas não percebe, e por isso vive metaforicamente preso a uma condição imaginária. E o contrário é verdadeiro: ainda que preso às correntes reais, o escravo se percebe, e assim é capaz de tocar a vida com liberdade de consciência.

Na democracia ideal o povo poderia ser o escravo com a consciência de que o senhor governo é seu dependente. Mas na “democracia” que conseguimos o povo sequer integra o elenco. No máximo é coadjuvante.

O senhor e o escravo na política atual são, respectivamente, capital e políticos. O senhor crê que aprisiona o escravo pelo dinheiro. Mas o escravo é sabido, é Jucá, tem consciência de si e faz o que bem entende. (Até no extremo, quando a Lava Jato chega, o senhor ganha mais correntes do que o escravo.)

Dos Estados Unidos tiramos dois bons exemplos desse delírio escravocrata do capital. O primeiro é a anedota sobre o Nelson Rockfeller, que teria dito à avó: “Quero ser presidente.” E ela: “Deixa de tolice, Nelsinho, temos gente para cuidar disso.”

A resposta atemporal veio com House of Cards. Frank Underwood, pela boca do saudoso Kevin Spacey, diz o seguinte: “Dinheiro é a mansão que começa desmoronar depois de dez anos; poder é o castelo de pedra que resiste aos séculos. Não posso respeitar quem não percebe a diferença.”

(Netflix, isso também serve para a arte. Spacey já se reconheceu, pediu desculpas e foi se tratar. Ao acreditar que vale mais proteger suas ações do que um ator brilhante, a companhia definha.)

Ontem vimos os e-mails do FHC pedindo doações a Marcelo Odebrecht para campanhas de senadores em 2010. Ele já não era presidente da República e Marcelo era o príncipe dos gestores. É lamentável ver alguém com a envergadura do FHC se submetendo a um Marcelo Odebrecht? Sim. Mas é do jogo. FHC percebeu e topou. Marcelo não entendeu e, invés de ficar constrangido, alimentou sua volúpia. Deu no que deu.

Igual ao Marcelo Odebrecht fazem todos os demais grandes empresários do país.

Em 2014, último pleito a permitir doações de empresas, um em cada sete deputados eleitos recebeu doações de pelo menos uma das dez maiores empresas doadoras, que meteram ficha nas campanhas de 360 dos 513 deputados federais atuais.

Se engana quem enxerga pontaria. Como a gente viu na delação da JBS, o capital investe em política como um jogador de roleta que bota fichas no preto e no vermelho, do par e no ímpar e ainda garante fichas extra para o 13, o 15, o 45, o 40, o 11…

Para ficar no que o José Roberto de Toledo chamou de “bancada do churrasco”, (grupo formado pelos candidatos que receberam doações da JBS e também da Ambev, somando 25 deputados), a companhia do Jorge Paulo Lemann, homem mais rico do Brasil, ajudou a eleger 76 deputados de 19 partidos diferentes.

++Passaredo 2018

Com os candidatos à Presidência não foi diferente. JBS e Ambev foram dois dos três maiores doadores e não deixaram ninguém de fora. Dilma, Aécio e Eduardo Campos receberam torres de fichas.

Coitada da suruba que nasceu querendo ser livre, e diversa, franca, democrática enfim, acabar assim.

Pior: não acabou. A proposta de “nova política” vai pelo mesmo caminho. O Renova BR, que nasceu como fundo e se transformou em escolinha por questões legais, garantiu a alguns de seus alunos a mesma transparência que cobra do que chama de velha política. Isto é, cada um deles, amplamente investigado, saberia quem é cada um dos doadores que financiam as bolsas que chegam a R$ 12 mil por mês. O prazo era abril. Não rolou. Deixaram para maio, que passou. E o veredicto: vão publicar neste ano o balanço das doações do ano passado, e o deste ano só no ano que vem ou pelo menos depois das eleições. O risco de um candidato ecologista estar recebendo doações de uma empresa de bebidas que seca nascentes por aí é alta. Pobre escravo que sequer pode se reconhecer.

 
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