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Em tempos de Lava-Jato, voltamos a lavar carros e calçadas

Ninguém sabia que era de caqui aquele pé no meu caminho da roça. Por décadas foi só mais uma árvore na calçada, querida como toda árvore na calçada, porém não sabida.

Era como aquele amigo pagão e infalível da calçada do botequim. Haja o que houver, lá estará ele, no fim da tarde, com uma cerveja e um sorriso, pronto para qualquer prosa, das amenidades às confissões. Ele é parte da sua vida mas não tem nome. Nem precisa.

Até que um dia ele falta e você vai descobrir com o garçom seu nome, suas proezas e o horário da missa. Sem intimidade com a viúva e receoso de enfrentar aquele olhar “esse vagabundo que desgraçou meu marido”, para o qual só o Zé do Pé tinha peito, você vai à igreja mas não fica para os cumprimentos. Procura a cumplicidade com a turma do fundão, ora nos últimos bancos, ora nas galerias laterais, alguns fumando na praça, e percebe que haverá encontro de intenções lá na calçada do boteco – com uma vantagem: o taberneiro topa pendurar a espórtula.

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Mas o que eu queria dizer é que este ano o caquizeiro se identificou. Calma, ele continua vivo, na Lorena, pouco depois da esquina com a Eugênio de Lima. Não virou estatística como tantas árvores que tombaram desgraçadas nos últimos anos em São Paulo. Ocorre que, quem entende do assunto, diz que ele se identificou por medo de desaparecer.

Em 2014, a repórter Fernanda Mena voltava da licença maternidade e se interessou pela exuberante florada dos ipês-rosa. É natural que aqueles móbiles fantásticos, com bolas cor-de-rosa enfeitando a cidade, prendessem a atenção de quem passara boa parte dos últimos meses tendo por universo um quarto de bebê, célula tão repleta de presente e que ainda arranja por onde nos fazer pensar no futuro.

E lá foi ela à faina descobrir que a beleza mais intensa dos ipês-rosa era um grito de socorro causado pelo chamado “estresse hídrico”. Ouviu do José Ricardo Ribeiro Hoffmann, engenheiro agrônomo do Viveiro Manequinho Lopes que, sem chuva, a planta acha que pode morrer e canaliza toda sua energia para se reproduzir, aumentando as chances de preservação da espécie. Flores, sabemos, são os órgãos reprodutores das plantas.

Fernanda também ouviu a professora de botânica da USP e especialista em ipês Lúcia Garcez Lohmann explicar que o pouco que se sabe sobre os ipês é baseado em observação, e que esta indica que eles florescem mais com o tempo seco e dias longos.

Guardo a matéria com carinho e apreensão. Nos últimos tempos, além do caquizeiro, encontrei uma jaqueira carregada na mesma alameda Lorena, e é improvável que dezenas de jacas penduradas sobre o meu caminho da vida toda tenham passado despercebidas em ocorrência anterior.

Além de jacas e caquis vi inéditas mexericas, limões, uma profusão de romãs, mangas e abacates, pitangueiras, amoreiras e goiabeiras dando mais do que o costume. E para não dizer que não falei das flores, ruas amarelas com tantas pétalas de sibipiruna, quaresmeiras desfilando até depois da Páscoa e todas as cores de ipê se revezando com impressionante precisão matemática. Um branco, raríssimo, ali na Groenlândia com a rua Primavera, estava de parar o trânsito, literalmente.

Como a própria Fernanda lembrou num post recente nas redes sociais, em 2015 o termo “volume morto” veio nos assombrar. E tudo, ou pelo menos a minha observação cotidiana, me leva a pesadelos parecidos com o Thriller do Michael Jackson, com o volume morto ressurgindo das catacumbas.

Se flores e frutas e os meus pesadelos não bastam, anote: 2018 teve o maio mais seco dos últimos 57 anos, os reservatórios do Sistema Cantareira já operam em níveis mais baixos do que os de 2013 (no último dia dos namorados estava com 45,7% e no 12 de junho de 2013 tinha 58,1%) e a vazão, que é quantidade de água que entra no sistema, está aquém da média há mais de um ano e meio. A Sabesp diz que as obras realizadas para combater a última seca vão garantir água na torneira até o fim de 2019. Mas não diz que é urgente economizar.

Ninguém há de negar que a gente fez muita bobagem durante do século XX. Paciência. Inês é morta. Mas impressiona ver que o volume morto não tenha ensinado nada. Em tempos de lava-jato, voltamos a lavar carros e as calçadas, prefeitura e governo do estado apostam em asfalto como ativo eleitoral, a estrutura de saneamento básico segue negligenciada e o indivíduo, diante deste quadro, puxa água para sua sardinha: vistas do alto, as concentrações urbanas parecem sofrer de uma brotoeja azul, todas sapecadas de caixas d’água. Quanto haverá de água parada pendendo feito jacas sobre as nossas cabeças?

Léo Coutinho, escritor e jornalista, é consultor político e estudante de Filosofia na Universidade Presbiteriana Mackenzie

 
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