Facebook YouTube Contato

PSDB 30 anos: o voo de galinha dos tucanos

Hoje PSDB faz trinta anos. A legenda vira balzaca desquitada do eleitorado. E, ao contrário do que socialmente significa o avanço da emancipação feminina, no caso do partido é a consagração do fracasso.

Entre os jornalões quem se antecipou foi o Estadão, com reportagem de Adriana Ferraz e Pedro Venceslau publicada no domingo de São João. Simbólico. Em setembro de 2010, véspera das eleições que poderiam virar a página da história promovendo a turma de 1968 para o “conselho”, permitindo renovação no Executivo, o jornal declarou voto em José Serra, do PSDB, contra Dilma Rousseff, do PT, ambos da geração política de 1968.

Da parte do Estadão, atitude corajosa que infelizmente não prosperou na imprensa nacional. Por aqui, lamentavelmente continuamos simulando isenção enquanto ninguém mais acredita em imparcialidade. Inverter esta lógica me parece fundamental para a sobrevivência do jornalismo.

Da parte dos partidos, progressistas separados na maternidade, era puro conservadorismo. Dilma foi empurrada por um dedaço do presidente Lula após o ocaso de Antonio Palocci e José Dirceu, este galã inconteste da turma de 1968. Seu xará José Serra bem que tentou, mas só foi galã enquanto governante, e como Dirceu teve o tirocínio político reconhecido até pelos adversários mais ferrenhos. Já derrotado por Lula em 2002, quando não defendeu o legado dos oito anos de FHC, Serra seria novamente derrotado em 2010, deixando o PSDB sem presente, passado ou futuro.

Era de se supor que alguém inteligente como o Serra aprendesse com os próprios erros. Só que não. Na entrevista à Adriana Ferraz, o mais importante tucano com mandato disse o seguinte: “Você não muda lideranças por decreto. Há gente jovem e boa, mas lideranças políticas têm de aparecer. Renovar não é uma decisão. E as pessoas precisam estar preparadas.” E o senador segue com uma crítica à escolha de Pérsio Arida para coordenação econômica do programa de governo do pré-candidato a presidente Geraldo Alckmin.

Quem conhece o modo Serra de pensar sabe que ele acredita que tudo deveria ser submetido a ele. Mas o que pasma na resposta é o descolamento da própria história. Serra atropelou em 2010, perdeu e, em 2012 voltou à carga, melando a prévia tucana para escolha do candidato a prefeito de São Paulo. Entre os concorrentes estava Andrea Matarazzo, seu amigo pessoal, que fora secretário estadual, ministro, embaixador e, mais importante, tinha segurado a administração da cidade quando Serra renunciou a um ano e três meses de mandato para concorrer a governador. O vice, Gilberto Kassab, foi rainha da Inglaterra de Piratininga no tempo restante. O “primeiro-ministro” Matarazzo garantiria a reeleição da administração em 2008 com a aprovação do governo em 86% (considerando a soma de ótimo, bom e regular). Mas em 2012, com Matarazzo frito por Kassab, que se dedicava exclusivamente a fazer o PSD, a cidade se encontrava largada e Serra disputou e perdeu para Fernando Haddad.

Para superar Serra, encerro sua presença nesta crônica citando mais duas respostas inacreditáveis na entrevista de aniversário. Já na primeira ele diz que o PSDB é diferenciado “sem prejuízo ao MDB”. Na terceira, defende a autocrítica partidária, provavelmente supondo que a sociedade tenha se esquecido de sua omissão quando Tasso Jereissati tentou e foi abatido no ninho.

Avante. Na reportagem do Estadão o primeiro parlamentar citado é Nilson Leitão, líder do PSDB na Câmara Federal. As aspas que lhe foram concedidas são estas: “É o momento mais difícil da história do partido.” O deputado Leitão foi o autor da PEC do trabalho escravo, morta no ano passado. Também tentou, como lembra a repórter Thais Bilenky hoje na Folha de hoje, emplacar uma lei que permitiria remunerar o trabalhador rural com casa ou comida. Agora, liderando um partido parlamentarista, colhe assinaturas para o projeto que quer diminuir o número de deputados de 513 para 394. Com apelo populista-eleitoreiro, já conseguiu 172 assinaturas e quer mais.

O Estadão traz também uma entrevista do presidente FHC. Ao repórter Pedro Venceslau ele reconhece que os tucanos hoje são mais liberais mas não menos socialmente orientados. É de se supor que FHC não conheça Nilson Leitão.

Por outro lado sabe-se do carinho e do respeito que FHC tem pela memória de Ruth Cardoso. O jornalista Elio Gaspari a definiu n’O Globo como “consciência social” do ex-presidente, lembrando que, em 2007, quando estourou o caso que viria a ser conhecido como mensalão mineiro (termo capcioso, baseado na semelhança de origem e não com o fim do dinheiro) e que acabou trancando Eduardo Azeredo, Ruth defendeu que ele fosse afastado da presidência do PSDB e “não foi ouvida”.

O ovo do tucano foi galado na convenção do PMDB que definiria o candidato ao governo do estado de São Paulo em 1982. A chapa vencedora foi Montoro-Covas, mas teve que ser diluída por pressão de Orestes Quércia, candidato derrotado que lotara o auditório no Anhembi com militantes egressos do MR8 e, no grito, exigiram “Quércia vice”. Franco Montoro passou mal e teve que ser socorrido. Mario Covas, percebendo o risco da não resiliência para a redemocratização do país, teve a grandeza de ceder a vaga. Mas a ferida foi profunda e deixou um queloide.

Montoro, eleito governador vencendo Reynaldo de Barros, candidato do PDS, além de Jânio Quadros e Lula, teve a coragem de convocar o primeiro grande comício contra a ditadura militar que pedia a volta das eleições Diretas, suspensas pelo golpe militar de 1964.

As Diretas não passaram mas o movimento foi determinante para a volta de um civil à Presidência. Como a eleição seria no colégio eleitoral, onde o então governador de Minas Gerais Tancredo Neves tinha mais força do que Franco Montoro, que por governar São Paulo tinha mais chance no voto popular, Montoro cedeu. Ao secretário Roberto Gusmão determinou uma “mensagem à Garcia”. Gusmão foi pessoalmente ao Palácio da Liberdade comunicar a Tancredo que ele seria o candidato. Telefone, na luta contra a ditadura, “só para marcar reunião em lugar errado”. Décadas depois, já na democracia, Aécio Neves, neto de Tancredo que presidia o PSDB, morreria politicamente num telefonema nada republicano.

Em 25 de junho de 1988, “longe das benesses do poder mas perto do pulsar das ruas”, nascia o PSDB. Nas semanas que antecederam a criação da legenda os jornais davam ampla cobertura às movimentações que cresciam enquanto Orestes Quércia, governando São Paulo com uma dose elevada de autoritarismo, desconstruía o legado democrático, descentralizador e participativo de Franco Montoro.

Consultando os arquivos da época descobri que o movimento era tratado por “o partido novo”. As sugestões de nome pululavam e o Carlito Maia, filósofo popular ligado ao PT, fazia troça sugerindo Partido Quase Popular, ou PQP. Motivo havia.

Desde a convenção de 1982, quando o ovo foi galado, os tucanos criaram um fetiche chamado “cercadinho”, que consiste num curral para proteger os caciques da indiarada em qualquer evento partidário. Naquele dia, no Anhembi, Montoro e Covas ficaram nos corredores cumprimentando os convencionais. Severo Gomes, que também disputava, montou um espaço que hoje chamariam de sala VIP. O auditório ficou para o MR8 quercista.

Trinta anos depois, segue o atavismo. A primeira tentativa de congraçamento do “centro democrático reformista”, que pretendia juntar lideranças em torno da candidatura tucana à Presidência da República, teve por foto de divulgação a imagem de uma dúzia de homens em terno e gravata, num salão forrado com lambris na parede e um enorme tapete persa. Nenhum jovem. Nenhum negro. Índio nem pensar. Nem gay assumido. E só uma mulher vestindo algo parecido com um jaleco branco. Era o retrato perfeito da sala de espera da urologista Angelita Gama.

Neste 25 de junho os tucanos celebram seus trinta anos em Brasília, num salão fechado e exclusivo para a Executiva do partido. Perto do poder e longe do pulsar das ruas.

Seria o Carlito Maia bidu além de filósofo popular? Acho que não. Filósofos trabalham com a razão e de alguma maneira ele percebeu o DNA tucano. Montoro e Covas não conseguiram fecundar o partido com seus ideais. Já na decisão sobre o nome da sigla, foram votos vencidos e acabou prevalecendo a social-democracia, algo que a maioria das pessoas não sabe o que é e, quem sabe, discorda. O maior adversário eleitoral nesses trinta anos foi o Partido dos Trabalhadores. Trabalho é algo que todo mundo entende e, por definição, ninguém se exclui. O logotipo de um é uma estrela, símbolo universal. O do outro é um tucano, que precisa de pelo menos um parágrafo para ser explicado.

As linhas ideológicas originais do PSDB eram social-democracia, liberalismo social e democracia cristã, com algum espaço no cercadinho garantido aos democratas conservadores. A primeira, pela complexidade, é praticamente impossível de ser comunicada. A segunda, jamais assumida, acabou adotada pelo, vejam só, Partido Novo, que escolheu o nome do PSDB pagão e ainda acolheu os conservadores, com seu líder dizendo que é “liberal na economia e conservador nos costumes”. A democracia cristã ficou para o e-e-Eymael.

Na prática o resultado é que os tucanos perderam o mel e a cabaça no plano federal. Para ficar nas conquistas dos oito anos de FHC, no social não defenderam a reforma agrária nem os programas de transferência de renda iniciados por Ruth Cardoso, entregando de bandeja para o PT os movimentos populares rurais e o Bolsa Família. Na economia, se envergonharam das privatizações e não souberam transmitir a importância da responsabilidade fiscal. Esperar que conseguissem comunicar que o maior programa social possível é a estabilização da economia seria pedir demais. Hoje o brasileiro atribuiu os tempos de bonança a Lula.

Mais distante, vale lembrar que o primeiro programa brasileiro de renda mínima foi começado por um tucano histórico, Magalhães Teixeira, o Grama, prefeito de Campinas durante a redemocratização. Mas quem passou anos repetindo a proposta foi Eduardo Suplicy, talvez o único grão-petista sem problemas com a Justiça. E que Geraldo Alckmin conseguiu “azular” o mapa eleitoral do estado de São Paulo quando entendeu que a “mancha vermelha” representava assentamentos rurais que demandavam os mesmos subsídios que os produtores tradicionais para trabalhar. Ofertando crédito para máquinas e insumos, Alckmin reverteu os votos, mas só contou como uma única vez em entrevista à repórter Julia Dualibi na revista Piauí.

A responsabilidade pelo comportamento tucano é só dos tucanos. Mas há influências. Na ditadura, fazer oposição implicava em risco de vida. Quem conseguiu se manter falando sem ser morto ou exilado foi a chamada terceira via de Ulysses Guimarães, Tancredo Neves, Franco Montoro. Na redemocratização, oposicionista e petista se tornaram sinônimos. Conceito falso.

O PT nunca foi oposição, sempre foi do contra. Votou contra Tancredo, contra a Constituição, contra o Plano Real, contra Lei de Responsabilidade Fiscal. E como quem é contra tudo nunca é a favor de nada, uma vez no governo o PT adotou o continuísmo da agenda tucana. Na Carta ao Povo Brasileiro garantiu o Plano Real e cumpriu. Reuniu e ampliou os programas de transferência de renda sob o guarda-chuva do Bolsa Família. E o PSDB, apoiou? Não. Foi incapaz de propor continuidade desenvolvimentista ao Plano Real e passou a tratar o Bolsa Família como esmola.

No plano dos estados, falando desde São Paulo sobre um partido paulicêntrico, os tucanos se iludiram com as sucessivas reeleições para o Palácio dos Bandeirantes. Aceitaram os votos contra o PT sem se preocupar em ganhar o eleitorado a favor do PSDB. A rigor, viraram tutores dos órfãos do malufismo. Com efeito, o tucano pra valer se encontra em extinção, sobrevivendo em um ou outro raro parque em Higienópolis, Jardim Paulista ou Alto de Pinheiros.

No último 17 de junho a Folha publicou um estudo que prova o palpite acima. Os pesquisadores Eduardo Cavaliere, graduado em Direito com concentração em matemática pela FGV do Rio, e Otavio Miranda, da área de economia política do Instituto Chongyang de Estudos Financeiros, na China, organizaram dados mostrando que, apesar de sucessivas vitórias para governador, no legislativo o PSDB é freguês do PT, que tradicionalmente elege mais deputados federais do que tucanos.

Quando a eleição majoritária é para o legislativo o fenômeno se repete. O PT elegeu mais senadores por São Paulo do que o PSDB ao longo das últimas décadas. José Serra (de novo) ganhou em 1994 mas deixou o suplente Pedro Piva no Salão Azul e foi para o ministério de FHC. Romeu Tuma tinha os votos do malufismo. E o protagonismo ficou com Aloísio Mercadante, Marta Suplicy e, claro, o mais longevo deles, Eduardo Suplicy, depois de 26 anos de vitórias perdeu em 2014 e agora lidera as pesquisas ao lado de José Luiz Datena, celebridade do entretenimento policial que tende a herdar o voto malufista.

Às vésperas das eleições de 2018 o cercadinho tucano virou terra de ninguém. Cabe todo mundo mas pouca gente quer ficar e menos ainda gente nova quer entrar.

Geraldo Alckmin, pré-candidato à Presidência da República, dia sim e outro também recebe pelas costas um adesivo escrito Doria presidente. O autor das pegadinhas, tudo indica, é o próprio João Doria, afilhado político de Alckmin e preferido do MDB de Michel Temer para sua sucessão. (Ver no YouTube a entrevista do Jô Soares aos repórteres Vera Magalhães e Edgard Piccoli da rádio Jovem Pan.)

No PSDB a piada é que o teto da juventude partidária é de quarenta anos. Mas o jovem araçari que tem menos de trinta anos votou exclusivamente em Geraldo Alckmin ou José Serra a vida toda. Sentindo a “morrinha de convento” que o Machado de Assis notou nas casas fechadas, quadros importantes espirraram. Sérgio Cabral saiu para ser governador do Rio. Eduardo Paes e Gustavo Fruet, estrelas da CPI dos Correios, também saíram, e venceram na Cidade Maravilhosa e em Curitiba. Em Campinas pulou fora o Jonas Donizete. Walter Feldman foi para a CBF. Andrea Matarazzo para o PSD. Álvaro Dias e Mario Covas Neto para o Podemos. Gustavo Franco para o Novo. Zé Aníbal ficou mas não se aguenta. Ciro Gomes foi por aí. Zulaiê Cobra desistiu. Entre cinco deputadas federais, 10% da bancada, nenhuma desfila alta plumagem.

A exceção só veio em 2014 com Aécio Neves para presidente. E a outra possibilidade é João Doria em outubro, que demonstra se sentir com autonomia não só para voar sozinho, mas até para decolar tomando o slot de Alckmin, que o embalou.

Hoje, quem for ao diretório estadual do PSDB-SP celebrar discretamente o aniversário da sigla, poderá conferir os retratos na galeria de notáveis. Estão lá Franco Montoro, Mario Covas, Magalhães Teixeira e Sérgio Motta, já falecidos. Entre os vivos, Fernando Henrique Cardoso, José Serra e Geraldo Alckmin.

Tendo sido prefeito da capital e aclamado pré-candidato ao governo do estado natal tucano naquele endereço, João Doria ainda não conquistou um espaço para seu retrato na parede. A imagem resume o voo de galinha do tucano que, antes de completar trinta anos, se esmigalhou. Ou, tomando emprestado o neologismo da jornalista Renata Lo Prete, virou farinata.

 

Aqui, minha nota de despedida do PSDB em 27 de outubro de 2017

 
Tags:
 Share on Facebook Share on Twitter Share on Reddit Share on LinkedIn
Comentários desativados  comments