Facebook YouTube Contato

Ciro Gomes no Data Coco

No “mercado”, para além dos bolões da copa, só se fala no medo de um segundo turno entre Bolsonaro e Ciro. Com razão a turma acha que Lula está fora e Marina Silva carece de estrutura mínima na chamada realpolitik, isto é, fundo eleitoral, capilaridade partidária, tempo de televisão. Isso tem prazo: 16 de agosto.

Sabem que as chances de mudança nas pesquisas de intenção de voto dependem desse prazo. Sabem também que a possibilidade de Geraldo Alckmin, Álvaro Dias ou Henrique Meirelles se juntarem ou superarem o estágio de inanição depende desse prazo – e que nada garante que uma ou outra coisa vá acontecer. Daí que Bolsonaro contra Ciro é o que há para hoje.

Bolsonaro conta com o prestígio da narrativa do Paulo Guedes, baseada na prosperidade pessoal do próprio (é impossível ser respeitado no “mercado” sem ser rico) e impulsionada pela retórica da repetição da palavra da moda: liberalismo. Guedes é radical nesse sentido, mas só na economia. Nos costumes, igual a toda patota liberal contemporânea, cede ao conservadorismo. Lessefér pra valer tropical é mosca branca.

Sobre esse fenômeno alguém já disse que “liberal na economia e conservador nos costumes é o novo ‘fumei mas não traguei’”. Não é. É o velho “fumei mas não traguei”. Lula também foi liberal na economia (sentido estadunidense) e conservador nos costumes. A “mulher de grelo duro”, “Pelotas polo exportador de veado” e Clara Ant emocionada com cinco homens de preto em quarto antes do desjejum são exemplos clássicos.

A turma mais esclarecida do “mercado” não acredita que Paulo Guedes logre êxito na promessa de tanger Bolsonaro – que é atrasado nos costumes e também em economia, com histórico nacionalista, protecionista e tem elogios ao modelo econômico bolivariano do general Hugo Chavez no currículo. O recente voto contrário ao cadastro positivo foi a gota d’água.

Leia Mais: PSDB 30 anos: o voo de galinha dos tucanos

Ao “mercado”, pois, restou conversar com Ciro Gomes. A XP Investimentos, instituição publicamente mais saliente neste processo eleitoral, desembolsou R$ 30 mil para ter uma palestra. Convidaram setenta clientes graúdos e soltaram o microfone na mão do homem.

Para saber como foi eu poderia simplesmente telefonar a alguns amigos influentes no setor, como fizeram os nossos grandes jornais que, resumindo, apuraram que foi bem (Folha, O Globo, Estadão) trato franco, cordial e até divertido, arrancando gargalhadas da plateia por quatro vezes. Ao final, justificou o cachê: “Tenho que pagar o gim das crianças. Quando a candidatura for homologada, aí evidentemente eu suspendo as palestras.”

Mas fui além. E aqui abro meu segredo: quando quero saber o que o “mercado” fala, vou ao Parque do Ibirapuera já na alvorada. A turma das finanças tem um apreço especial por corrida e vários deles participam de grupos que correm uniformizados, alguns com camisetas de maratonas patrocinadas por bancos de investimento e que tais. Quando vejo um grupo já no carrinho da água de coco, encosto e, como quem não quer nada, fico ali de orelhada. Apelidei a prática de Data Coco.

Hoje deu trabalho. Só no terceiro carrinho encontrei gente falando sobre eleições. Antes Neymar, Tite, Alemanha e Argentina prevaleciam. E quem falava de eleições também falava do leilão de ontem, das linhas de energia, considerado bom negócio para quem comprou. Sobre Ciro na XP a preocupação era mais relacionada ao temperamento do que às ideias sobre economia. Uma menina disse assim: “O Lula também falava muito mas até a Dilma não dá para reclamar do que ele fez.”

Não contente, chegando em casa peguei o telefone e chamei um amigo da época do futebol arte no mercado financeiro, criado na brutalidade do pregão dos anos 1980. É um dos poucos velhos que resistem ao estresse da profissão e seguem funcionando. Me contou que nos grupos de Whatsapp o assunto da noite de ontem era o mesmo. E emendou o seguinte: “Ciro é quase boca-suja, terá que se controlar na eleição e mais ainda se for eleito. Mas a sua geração é muito chata. Na minha época de BM&F a gente passava a mão na bunda dele.”

 
 Share on Facebook Share on Twitter Share on Reddit Share on LinkedIn
Comentários desativados  comments