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Executivo da Philips tocou o apito e seus colegas foram tocar piano ou Elio Gaspari não pode tirar férias

O Globo vem dando um baile de reportagem e, se tem uma falha hoje, é o Elio Gaspari estar em férias. Pênalti grave. Daí que, sem medo de ser feliz, não me seguro e volto à carga para tentar cobri-lo.

Já escrevi aqui que a incineração da política não vai parar na política. E em que pese as declaradas ótimas intenções de jovens de todas as idades que falam em renovar geral, notadamente os grandes herdeiros que na casa dos vinte anos já integram os conselhos das empresas familiares, dificilmente qualquer um deles resistiria a uma CPI sobre os negócios da família. No mínimo, sofreriam grande decepção e teriam que deixar os jetons na recepção do analista. Vale para quase todo mundo que trabalhou no Brasil nas últimas décadas.

Ontem a Operação Ressonância da Polícia Federal, desdobramento da Fatura Exposta, também conhecida como Lava Jato fluminense, foi buscar executivos da Philips e mais 36 empresas envolvidas em esquemas de corrupção na Saúde do estado do Rio de Janeiro, governo Sérgio Cabral Filho e além, coisa de até R$ 300 milhões.

Mais distante e não menos importante é lembrar que o cerne do esquema era o Instituto de Traumatologia e Ortopedia (ITO). Tombos em calçadas são ¼ dos atendimentos de traumatologia e ortopedia no Hospital das Clínicas em SP. E quem é do ramo afirma que com R$ 300 milhões resolveríamos os problemas das calçadas.

Ainda: Sérgio Côrtes, ex-secretário de Saúde do Cabral, membro da confraria do guardanapo e pivô do esquema investigado pela Ressonância está preso e deu recentemente uma emocionada entrevista às páginas amarelas da Veja. Confessa que errou, não pede absolvição e não acredita no perdão nem dos próprios filhos. Só sente vergonha. Mas pelo menos confessou. E a confissão liberta. Leitura obrigatória para podermos avançar enquanto sociedade.

Hoje n’O Globo há uma entrevista com José Masiero Filho, ex-executivo da Philips punido por ser honesto. Denunciou o esquema, foi para a geladeira e, quando insistiu, acabou demitido e queimado no setor. Nunca mais arranjou emprego. Então procurou a Lava Jato e conheceu o programa de proteção a testemunhas do nosso país. Trocou de identidade, ganhou um salario mínimo e vive apavorado com a segurança de sua família.

Mas vamos ao Elio, se não a gente não termina. Trabalhasse na Philips dos EUA, Masiero estaria diferente. Lá existe a lei do whistleblower. E foi o Elio Gaspari que explicou como funciona: “Um vendedor do laboratório Pfizer denunciou técnicas ilegais de comercialização de produtos, reclamou por dentro e perdeu o emprego de US$ 125 mil anuais. Veterano da Guerra do Golfo, foi ao governo. A Pfizer foi investigada, tinha culpa e tomou uma multa de US$ 2,3 bilhões. O veterano que tocou o apito recebeu US$ 51,5 milhões.”

A lei do tocador de apito é uma evolução da Delação Premiada que a Lava Jato importou dos EUA. Ou por outra: pegou a ideia e topicalizou. Lá o delator nem precisa mentir para perder o prêmio, basta não provar o que disse. Aqui, delator mente e fica solto. Nossa capacidade de esculhambação é brutal.

Alheia a toda confusão, segue a Philips. Lá da sede em Amsterdã o diretor médico da centenária companhia disse à Exame que eles estão cada vez mais mergulhados na área da… saúde.  E emenda: “O futuro da saúde é digital.” Concordo com ele. Mas com o perdão dos trocadilhos, emendo: o presente da Philips é “digitais”. Masiero tocou o apito e seus colegas foram tocar piano na frente do delegado.

 
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