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Renda Básica avança com Obama

Dias depois do Robert Reich, ex-ministro do Trabalho do presidente Clinton, meter um belo artigo defendendo a renda básica universal no New York Times, o presidente Obama foi a África ver parentes e celebrar o centenário do Mandela.

Mandela era um craque, com alta noção de oportunidade e capacidade de comunicação, como prova sua vida. E até na morte ele confirmou as habilidades. Em seu funeral, o homem mais poderoso do mundo era preto: Obama.

Ontem, na conferência anual Nelson Mandela, Obama mostrou como também é craque e deu uma aula de narrativa. Desde a África do Sul, país mais desigual do mundo, afirmou, em seu primeiro discurso para grande público desde que deixou a Casa Branca, que a recíproca do trabalho não é só o dinheiro, emendou que o trabalho dignifica, cria estrutura e dá sentimento de pertencimento e propósito. E que, neste sentido, precisamos pensar em como preparar os jovens para serem empreendedores em algum nível, rever a escala de trabalho semanal e considerar a ideia de uma renda básica universal. Concluiu em tom grave: sem olhar para a economia, podemos colocar em risco a democracia.

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Por quê foi uma aula? Pela mensagem indireta. Em narrativa raramente funciona dizer o óbvio diretamente. É aquela piada do telefonema avisando que “o gato subiu no telhado”. Você prepara as pessoas para dar a notícia. E, com habilidade, as provoca para chegarem à conclusão sozinhas. Fornece o lé, o cré e deixa rolar.

Foi exatamente o que Obama fez. Ao escolher o país mais desigual do mundo como palco e se associar ao legado de um líder que paira acima das disputas comezinhas, disse o óbvio sobre o valor do trabalho e da necessidade de diminuirmos a desigualdade no mundo, apenas sugerindo, e não cravando, que é urgente pensar em distribuição de renda.

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Meu trabalho é construir narrativas. E, sendo a casa de ferreiro, o espeto só pode ser de pau. Na primeira vez que escrevi sobre a renda básica, disse tudo de uma vez: com as novas tecnologias viveremos mais e trabalharemos menos; o modelo de produção e consumo que promove o pleno emprego para 1,7 bilhão de chineses e americanos explodiria o planeta se elevado para sete bilhões de pessoas; é um dos raros temas capazes de unir campos ideológicos completamente antagônicos, encontrando simpatizantes de Porto Alegre a Davos.

E, confirmando meu espeto de pau, vou dizer o que o Obama não disse, mas sabe, sobre o valor do trabalho: o preço. Lá da África, qualquer mensagem sobre trabalho envolve a história da escravidão no mundo. Ou seja, a mensagem é: vamos pensar no tipo de trabalho que você faria e por que. Você abandonaria os seus filhos e os seus velhos para cuidar dos filhos e dos velhos de outras pessoas por qual preço? Nenhum? Muito bonito. Nobilíssimo. Mas obviamente você não precisa do dinheiro. Se precisasse, toparia, como topam milhões de pessoas. E obviamente elas não topariam se tivessem uma renda básica garantida. Ficariam em casa exercendo a nobilíssima e jamais remunerada tarefa de cuidar dos próprios filhos e dos próprios velhos.

+++ Calça jeans e renda básica

O final de semana está chegando e em algum momento parte desta freguesia pedirá uma pizza em casa. Ou hambúrguer, tanto faz. E parte dos que vão pedir usarão os aplicativos de entrega. Um deles, que promete de ser o segundo unicórnio brasileiro, mostra na TV como funciona: você fica andando numa esteira ergométrica e, de repente, surge o seu hambúrguer na porta de casa. Note a narrativa: você anda de propósito sobre uma máquina que não sai do lugar enquanto o escravo acelera uma moto para ganhar quatro reais. Pelo menos dois deles morrem diariamente no trânsito. É o mesmo modelo da São Paulo colonial, com um agravante: de cativo o escravo passou a ser compartilhado.

A notícia boa é que a agenda da renda básica avança. Junto com Barack Obama , Robert ReichMark Zuckerberg Fan ClubRichard BransonPeter H. DiamandisElon Musk Quotes & News e Fernando Henrique Cardoso estão 55% dos paulistanos, segundo pesquisa da Rede Nossa São Paulo, apresentada ontem. O projeto, pauta histórica do vereador Eduardo Suplicy, tramita na Câmara Municipal de São Paulo e tem o apoio até do colega Fernando Holiday e do secretário de Gestão Paulo Uebel.

Avante, RBU!

 
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