Blog do Léo Coutinho - A bossa nova portuguesa
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A bossa nova portuguesa

Às dez horas da noite do Sete de Setembro de 1964 Vinicius de Moraes estava num quarto de hotel, que dava para uma praça, que dava para toda solidão do mundo. Sozinho e em tristeza profunda, ampliada pela consciência da festa brasileira na embaixada em Paris, não muito longe do Porto do Havre, donde o poeta e diplomata aguardava o navio que o entregaria de volta aos amigos, ao tutuzinho com torresmo, à galinha ao molho pardo, ao doce de coco.

Para segurar o bode o Poetinha escrevia uma carta ao Tom e lembrava grandes feitos da turnê com Baden Powell pelo Velho Continente. Sem qualquer modéstia afirmou: “Agora o tremendão aconteceu mesmo, a Europa teve que curvar-se.”

Com o Tom e o João Gilberto ele tinha feito a Bossa Nova. Mas na Europa, com o Baden, atacou com os afro-sambas, mais próximos da forma tradicional, o que atribuiu às raízes, emprestando o termo do Lúcio Rangel.

Fiquei pensando nesses brasileiros fantásticos ao ler n’O Globo a reprodução da matéria do NYT sobre Portugal e o êxito da Geringonça, coalisão política que desafiou a troika europeia e recusou o modelo de austeridade sem desleixar no rigor fiscal. Ou, como diria o Vinícius, o primeiro-ministro Antonio Costa fez doce conciliação sem covardia.

Dez anos depois os resultados são festejados a ponto dos europeus entregarem ao ministro das Finanças Mario Centeno a presidência do Eurogrupo, colégio de ministros de finanças da zona do euro. Isto é: a Europa teve que curvar-se.

Não é a primeira vez que Portugal aposta na receita doméstica e criativa para se livrar de um problema grande causando o menor sofrimento possível. Mas talvez seja a primeira vez que a vizinhança reconhece o feito.

Já li meia-dúzia de biografias sobre o Napoleão e em nenhuma delas o drible português que o desnorteou é reconhecido. Aliás, mesmo aqui no Brasil pouca gente reconhece a proeza de Dom João VI, que com apoio da Inglaterra e do diplomata Dom Rodrigo de Sousa Coutinho deixou as tropas napoleônicas à toa em Lisboa, sem ter que tocar fogo na cidade como fizeram os russos. Simplesmente Portugal não era mais ali e, se o grande estrategista corso quisesse anexa-la a seu império, teria que cruzar o Atlântico. Algum tempo depois tudo voltou a ser como dantes.

Os críticos, muito bem-vindos, dirão que ainda não se pode festejar, porque há muito trabalho pela frente e uma dívida alta. Ora, trabalho pela frente temos todos e o primeiro a reconhecer o fato é justamente o primeiro-ministro Antonio Costa. E dívida é igual a remédio, boa na dose certa, antes de virar veneno. As maiores economias do mundo devem uma barbaridade, com China, Japão e EUA, segundo o FMI, responsáveis por mais da metade dela.

O importante é a Europa ter reconhecido que Portugal encontrou uma alternativa, uma bossa nova, que não sacrifica o povo. Como diria o Vinícius naquela carta do Porto do Havre, “afinal, é para ele que a gente compõe”.

 
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