Blog do Léo Coutinho - Já para a academia
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Já para a academia

De um a nove de agosto o Rio de Janeiro será a capital mundial da matemática. É o prazo de realização do Congresso Internacional de Matemáticos, ou ICM na sigla em inglês, com direito a entrega da medalha Fields, considerada o Nobel da área e que laureia a cada quatro anos, desde o século dezenove, quem se destaca na matéria.

Há vasta reportagem na imprensa para a gente se divertir. O que eu mais gostei relato em três pontos: saber que é no Rio, que o anfitrião é o Instituto de Matemática Pura e Aplicada e que o congresso abre no 1º de Agosto.

Explico: o Rio é o recheio de um sanduíche de maré e floresta, que são pura matemática, assim como a música está para a matemática como a poesia para a gramática.  Se contassem isso para a gente na escola, invés do decoreba utilitário tradicional, muito provavelmente gostaríamos mais dos números. Juntando tudo, maré, floresta, música, poesia e o Rio, só posso concluir que o Tom Jobim deve estar pra lá de contente.

Mas e o primeiro de agosto? Bom, é o meu dia de volta às aulas. Como parte desta freguesia sabe, fugi da escola na adolescência. E um dos motivos foi o utilitarismo da escola.

Ainda nos verdes anos andei perguntando para que servia aquela rotina massacrante. E a resposta era invariavelmente tenebrosa: porque aumenta suas chances de arranjar emprego. Ocorre que me esfolar naquele rame-rame para então, depois de formado, ampliar a rotina, me levou a primeira crise existencial. Faltava beleza. Faltava propósito. E eu preciso de beleza e de propósito. Custa caro, eu sei, mas é da minha natureza.

Mais recentemente, já oficialmente velho e incentivado pela minha Neguinha, entrei num madureza no colégio Lapa e não perdi a viagem. Concluído o ensino médio, prestei Filosofia no Mackenzie e já cumpri o primeiro semestre. E, quem diria, agora veterano, estou doente de saudades da escola. Saudade da beleza que é estudar com um grupo de colegas e professores que estimam justamente a beleza de saber antes de qualquer sentimento de utilidade – ainda que este esteja presente.

Turma corajosa que rema contra a corrente utilitarista fazendo questão de pensar e questionar antes de fazer. Todos ouviram em algum momento o palpite vulgar de que Filosofia não serve para nada, que é coisa de vagabundo, e seguiram em frente. O sujeito que se recusou a carregar uma pedra e parou para descobrir a roda, ou o outro que inventou os aquedutos, devem ter escutado coisas semelhantes e, sorte nossa, não deram ouvidos.

Com o avanço das tecnologias a Filosofia se torna mais e mais necessária. O debate em torno da singularidade tecnológica, que é a fusão da biologia e da tecnologia, passa por questões éticas. E os esquemas filosóficos são fundamentais para as soluções.

Vamos ter que decidir até onde a inteligência artificial e a internet das coisas poderão conduzir a sociedade. Quanto poderemos misturar seres vivos e máquinas. Teremos nano-robôs no sangue que permitam comer e não engordar? Teremos células vivas capazes de cicatrizar um furo numa calça? Os jeans serão eternos?

Naturalmente há quem se apavore com tais perspectivas. Entram questões políticas, morais, religiosas. Mas, de novo, não deve ter sido diferente na roda do primeiro humano que controlou o fogo. Aposto um milhão de dólares do Zimbábue que alguém disse que aquilo era brincar de deus.

De volta ao Congresso Mundial de Matemáticos no Rio de Janeiro, a beleza de saber e estudar vai pautar o encontro. E servirá de norte para todos nós.

Caso outro milhão na aposta seguinte: se as máquinas inanimadas nos livraram do esforço físico compulsório e nos levaram a suar por prazer na academia de ginástica, as máquinas inteligentes, nos livrando do pensamento utilitário, nos levarão à velha academia, aquela de saber por prazer, aquela do Platão.

 
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