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Museu Nacional – retrato do Brasil

Aos duzentos anos de idade, o Museu Nacional virou cinza. Soube hoje pelo canal Meio que nenhum ministro compareceu à solenidade do aniversário, em junho. E o último presidente a visitar a Quinta da Boa Vista foi Juscelino Kubitschek.

Michel Temer não é o principal responsável pela tragédia. Michel Temer não merece sequer esta distinção. Não tem mais filme para queimar. Mas por estar no posto e, logo que assumiu, ter proposto acabar com o ministério da Cultura, ou ter distribuído dezenas de bilhões de reais em emendas para se safar de um processo criminal, sendo que nenhuma emenda procurou atender às urgências do Museu Nacional, será lembrado pelo assombroso descaso.

Dos treze nomes que concorrem à Presidência da República, só dois trataram da importância dos museus e do patrimônio histórico e cultural em seus programas de governo: Marina Silva e Ciro Gomes.

Em contrapartida, Guilherme Boulos e Manuela D’Ávila estão sapateando sobre as cinzas, numa sem-vergonhice inacreditável, mesmo para os dois. É de fazer corar canalha que canta viúva no velório do amigo.

O mercado empedernido também chafurda nas cinzas. Acusam o Estado, os governos, tudo o que está aí. E a preferência, como sempre, é o ataque à Lei Rouanet. Como se o mercado não se valesse de perdões de impostos bilionários e da própria Lei Rouanet para gastar dinheiro público patrocinando cultura com retorno comercial. Tenho certeza que gelam as consciências junto com a champanhe rosé.

Aquelas janelas ardendo são o retrato do Brasil. Do abandono, do descaso, da hipocrisia. O individual venceu o coletivo. Salve-se quem puder.

E é importante notar que, não muito longe dali, na Penha, uma cozinheira de 39 anos e seu filho mais velho, com vinte anos, tiveram a casa destruída: sofá rasgado, TV quebrada, geladeira, rack, guarda-roupa, caixa de som, cama, beliche, cômoda: tudo perdido. Incêndio, deslizamento? Não. As tropas do Exército da Intervenção Federal.

A cozinheira e seu filho foram identificados como autores de um vídeo de uma operação militar. O vídeo viralizou, deu até na TV. Mas por que eles gravaram? Para provar para os patrões que naquele dia não dava para sair de casa. Descobertos,  sofreram a retaliação covarde e criminosa.

O preço da tralha da família, descrita acima, é fácil de calcular. Alguns dos pertences, inclusive, ainda estão sendo pagos no carnê das Casas Bahia. Já o acervo perdido no Museu Nacional é de valor inestimável. Noves fora esta diferença, ambos não existem mais. São o nosso retrato, um retrato sem imagem, sem reconhecimento, sem passado, sem futuro, qual o reflexo de um vampiro.

Errata 1: a agência Lupa verificou os programas e só Marina e PT citaram museus nos programas de governo, Corrigido.

Errata 2: o canal Meio atualizou sua nota dizendo que, depois de JK, o general Costa e Silva, enquanto ocupou a Presidência da República, esteve no Museu Nacional.

Atualização: Sobre o incêndio, Jair Bolsonaro disse: já pegou fogo, quer que eu faça o quê?

 
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2 Comments  comments 

2 Respostas

  1. Dominique Fretin

    Só discordo de sua avaliação da “tralha da família” que comparou com o acervo do museu, de valor inestimável no seu dizer. A tralha das casas Bahia, para esta família tinha um valor inestimável também e estou me referindo a valores e não a custos financeiros. Mais do que apetrechos de utilidade cotidiana, esta tralha significou meses (ou anos) de labuta, de dinheiro contado, de sacrifícios que acompanharão a família por muitas prestações ainda. Falemos de valores e não mais de custos financeiros! Em escalas diferentes, com utilidades e significados intrínsecos, um crânio de 11.000 anos não é tão diferente de um liquidificador. O crânio só é notado indo ao museu (agora já era) ou assistindo a um documentário da History Chanel ou Discovery, se é que que se assina alguma TV a Cabo. O liquidificador deve ser conservado para durar o maior tempo possível, e guardadas as devidas proporções, recebe mais cuidados e custa mais para sua manutenção (energia, água, sabão ou detergente, eventuais consertos) e exige mais cuidados para sua manipulação diária.
    Depois de destruídos, pelo fogo, por vandalismo ou pelo exército, o liquidificador se foi e substituí-lo custará caro, em novos sacrifícios. Já, o crânio, ou a múmia, têm registros aos montes, fotos, exemplares similares em outros museus. Podem até ser impressos em 3D e ter valor financeiro agregado , um “kintsukuroi”.