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Tem pai que é cego

Tem pai que é cego”, dizia o Tavares, personagem do Jô Soares. Bichona enrustida, negava a homossexualidade do filho, depois da filha, para esconder a própria.

Jô é um profeta. Através do humor, fez antropologia social e previu o dia de hoje, estarrecedor.

Eu deveria ter desconfiado da turma que ria não do Tavares, mas dos seus filhos. Não entendiam a piada. Ou não queriam entender. Reflexão pode doer.

A luta contra a corrupção serviu de argamassa para o bolsonarismo. Todo o mais que o ex-capitão representa permaneceu escondido na medida do possível, ou pelo menos até onde pudesse ser negado. Afinal, a turma se envergonhava dos próprios fetiches: misoginia, homofobia, xenofobia, racismo e, sobretudo, a demofobia e o autoritarismo. Mas contra a corrupção, quem há de ser contra?

A receita foi usada repetidas vezes. Quem não se lembra do PT como o partido da ética?

Democracia tem poder civilizatório e encontra seu auge durante uma campanha eleitoral, quando o debate ferve, liberando aromas.

Como os demais exemplos são já bastante explícitos, vou ficar na demofobia para economizar esta freguesia.

Ciro Gomes propõe um plano de emergência para tirar 63 milhões de pessoas do SPC, coisa que os bancos todos fazem amiudemente, assim como os governos, tanto para pessoas físicas quanto para pessoas jurídicas, e é duramente criticado. Por quê? Demofobia.

Hamilton Mourão diz que crianças criadas por mães e avós, sem pais e avós (o plural de avô é avós, me perdoa, general), são potenciais desajustados. Advertido, faz a autocorreção: nem todas, só aquelas “sem recursos”. Quer dizer, quem deixa os filhos aos cuidados da babá, está certo. Errada está a babá, obrigada a deixar os filhos aos cuidados de ninguém.

Mas o suprassumo veio hoje, na capa da Veja, que a nove dias da eleição, publicou parte de um processo de separação dos Bolsonaro – que por sinal já era público, só faltando a reportagem.

O conteúdo publicado, restrito ao interesse público, traz a costumeira baixaria dos desenlaces matrimoniais litigiosos. Ocorre que as partes envolvidas são pessoas públicas, e a renda e os bens citados no processo não combinam com a renda e os bens declarados por lei à Justiça Eleitoral. Dólares e reais em espécie, joias, imóveis ocultados.

É óbvio que Jair Bolsonaro deve explicações. Mas seu seguidores não querem saber. Ouvi de um: “homem bom é assim, que presenteia a mulher. E se tinha renda três vezes superior à declarada, sorte dele.” (Juro que disseram isso. Está nos comentários de um post que fiz no Facebook, com a capa da Veja.

Outra grande parte diz que a editora Abril está em recuperação judicial e que por isso aceitou dinheiro de alguém para fazer a matéria. A cifra, aplicada como vídeo-vacina por uma correligionária de Bolsonaro, chega a ser cômica, R$ 600 mi, e a turma acredita. Mas pergunto: Por qual régua tomam os outros? Quem está sem grana topa qualquer rolo?

Enfim, hoje os bolsonaristas saíram do armário. Retroalimentados pelo petismo, seu antagonista e provável adversário no segundo turno, incapaz de fazer autocrítica por tantos males causados ao Brasil, mesmo depois de não ter mais nada a perder, abandonaram o pudor e mostraram que estão dispostos a defender seu candidato sob qualquer circunstância. E isto indica que quando ele mandar prender e arrebentar, terá apoio.

Só posso concluir que a revolta central dos movimentos anticorrupção brasileiros é aquela definida por outro humorista genial, Millor Fernandes: “Negociata é todo bom negócio para o qual não fomos convidados.”

Estão todos crentes que podem “jair” esperando o convite. Solta o aerotanque.

 
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