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Bissurdez

Desconfio que estamos todos surdos. Desconfio da minha própria surdez. A sensação é ruim. Hoje, quem estiver satisfeito, como quem ouve música e não berros tantos, precisa de ajuda.

Bolsonaro finge que ouve Paulo Guedes, o príncipe e o astronauta. E até o general. Haddad finge que ouve Lula, Gleisi Hofman, José Dirceu. E até o Renan.

Nada de novo. Dizia o Otto Bismarck: nunca se mente tanto como antes das eleições, durante as guerras e depois das pescarias.

Quando se deu conta de que precisava de um economista para se tornar viável, Bolsonaro encontrou Paulo Guedes. Era o que sobrou e a recíproca era igual. O candidato nunca tinha se preocupado com o tema. Passou anos implicando com a homossexualidade do Jean Willis sem dar bola para o descalabro econômico do PT. Enquanto isso, Paulo Guedes tratou de ficar rico para então comprar poder. Tentou Luciano Huck e Henrique Meirelles. Água. Sobrou o Bolso e assim nasceu o Posto Ipiranga, que já secou. Nem o candidato o escuta, nem ele pode dizer o que acha.

Com Lula e a cúpula petista presa e impedida, Haddad fez a lição de casa. Virou advogado do Lula, bancou o boneco de ventríloquo, tornou público um plano de governo que não é capaz de defender em privado. Aos poucos, vai se distanciando. Escanteou Márcio Pochman, Gleisi Hofman e Zé Dirceu. Agora flerta com Meirelles e Ciro Gomes.

Os que se percebem enganados, reagem com ameaça de golpe. General Mourão não admite ser enquadrado pelo ex-capitão e sinaliza que continuará desfilando o aerotanque. Zé Dirceu faz o mesmo: em entrevista ao El País disse que tomará o poder – algo além de vencer as eleições democraticamente. Não engole ser um diabo sem tridente, vivendo um inferno particular.

São aliados perfeitos. Um precisa do outro para botar o bloco na rua como historicamente desejaram ou pelo menos sinalizaram.

E o eleitorado segue surdo ou não querendo ouvir. Segundo o Datafolha, 49% não quer Haddad ou Bolsonaro (soma de não-votos com retardatários). A outra metade está firme com ambos, mais de 70% decididos. Mas pelas conversas que tenho, percebo que não estão informados sobre quem é um e outro.

O consultor político Ibsen da Costa Manso destacou um quadro que raramente é publicado. Uma das questões da CNI/Ibope mais fresca, é sobre qual notícia o entrevistado tomou conhecimento nos últimos dias. 71% disseram nenhuma, não souberam ou não responderam. Os que citaram eleições ou candidatos à presidência somam 1%.

Diria um amigo: é uma bissurdez.

 
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