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Daciolo é antes Orloff do que Vostok. O cabo de hoje é o capitão amanhã

Faltando uma semana para a eleição, os candidatos à Presidência se reuniram no debate da TV Record, marcado por um vácuo impressionante. A audiência ficou em terceiro lugar na televisão, atrás de Globo e SBT, seguida de perto pela Rede TV. Nas mídias sociais silêncio parecido, salvo pelas buscas por cabo Daciolo, Vostok e óleo de Peroba.

Pudera. Zapeando na noite de domingo, o telespectador que passasse pela TV Record veria o cabo pregando e concluiria que era a programação normal da emissora.

O ponto alto do cabo – e do debate – foi, de novo, sua preocupação com a política internacional, posta de parte por seus pares. Se no primeiro debate (Band), ainda antes do retiro no monte, ele chamou a atenção para a Ursal, ontem, no penúltimo encontro, alertou a Nação sobre o risco Vostok, vultuosa manobra militar russa realizada em meados de setembro último.

A turma do centro-democrático procurou estabelecer alguma convergência, esforço visto pela última vez durante as articulações por alianças, quando todos eram amiguinhos em potencial. Antes tarde do que nunca. Porém em vão: foram engolidos pelo bombeiro incendiário.

Com o capitão Bolsonaro já em casa mas ainda convalescendo (não foi à TV Record mas recebeu apoio do bispo Edir Macedo nas redes sociais), sobrou para o cabo Daciolo encarnar o doido. Porém, como o papel do Messias já está consolidado, a tática adotada foi dobrar a aposta, encarnando o Messias 2.0.

Novidade nenhuma. Além do próprio Bolsonaro com suas duas esferográficas no bolso da camisa, punhos desabotoados e discurso alinhado ao desalinho, Jânio Quadros era craque nisso. Até caspa usava. Fernando Collor em 1989 era o “caçador de marajás”. João Doria em 2017 foi gari, pintor de sarjeta, jardineiro.

E Daciolo, ontem, reeditou a clássica campanha do “tostão contra o milhão” de Jânio, mirando Henrique Meirelles. Já no sábado, em entrevista ao Estadão, antecipou o chiste, dizendo que gastou até agora por volta de R$ 700, enquanto Meirelles pingou R$ 43 milhões e mesmo assim estão tecnicamente empatados, fenômeno que ele atribui ao jejum no monte.

Ainda ao Estadão, merece destaque o trecho em que o cabo fala sobre como conheceu Jesus. Depois de um mês de diarreia sem causa identificada por exames médicos, entregou sua vida a Deus e no dia seguinte seu intestino voltou a funcionar regularmente.

Parece engraçado e é. Mas o perigo é evidente. Daciolo está mais para a Orloff do Ênio Mainardi do que para Vostok. Daciolo é Bolsonaro amanhã.

Para o PT é o ideal. Se hoje quem rivaliza com Lula / Haddad é Bolsonaro, onde estarão os extremos amanha? Jean Willys – Daciolo?

Os demais candidatos estiveram mais para plateia do cabo do que para debatedores. Seus grandes momentos foram as expressões faciais diante das declarações do protagonista inconteste. Salvo, é claro, Geraldo Alckmin, que não altera a expressão jamais.

E para não dizer que não falei dos outros, Álvaro Dias pareceu francamente disposto a superar Neymar em frequência ao cabeleireiro. Marina Silva se destacou por exibir um número de lapela diferente, quiçá feito por ela mesma em resíduo de coco. Ciro, equilibrado, fica com jeito de feijoada light – nutritiva, saudável e sem bossa. Haddad e Boulos, num jogral despudorado, podiam ter levado coalhada, babaganuche e homus para compartir o pão.

 
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