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Eleição intestinal

Foi uma eleição regida pelo sistema gástrico, em todos os sentidos.

Lula, impedido de concorrer por estar preso, condenado em segunda instância, liderou as pesquisas de intenção de voto enquanto insistiu que poderia ser candidato. A razão da sua popularidade é estomacal. Seus eleitores sentem saudades da geladeira cheia que foi possível durante seu período. Por isso, perdoam qualquer coisa, até os flagrantes casos de corrupção.

Seu poste, Fernando Haddad, sabe disso e joga para a torcida, mesmo constrangido pelo PT raiz, que preferia Jacques Wagner na disputa e não se furta em atrapalhar a campanha do candidato com declarações absurdas, vide as falas Gleisi Hoffmann e José Dirceu.

Contudo, no primeiro turno a estratégia petista funcionou. O “filho do Lula” herdou grande parte do capital eleitoral do pai e passou para a segunda fase com quase 30% dos votos válidos.

Seu desafio agora é mostrar que geneticamente é mais parecido com Fernando Henrique, que se eleito estará emancipado pela força do cargo, sem correr o risco de ser deserdado. Difícil. Amanheceu em Curitiba nesta segunda-feira para despachar na cela de Lula, mal sinal para os eleitores que temem a ascendência de um presidiário sobre o um possível presidente da República, bom sinal para os lulistas que não gostariam de ver o filho abandonando o pai.

Jair Bolsonaro chegou ao fim do primeiro turno com votação consagradora: 46,3%. É um colosso para um deputado de histórico parlamentar medíocre que sequer partido tem e vive se desentendendo com os poucos aliados políticos que conseguiu atrair, a começar pelo próprio vice, Gal Mourão.

O atentado a faca sofrido em Juiz de Fora rasgou seu intestino, mas o protegeu do debate eleitoral, inconveniente para alguém despreparado. Resguardado na UTI, só falou o que quis, sendo o auge a “entrevista” encomendada pelo bispo Edir Macedo, duplo atentado ao jornalismo e à lei eleitoral.

A dinâmica do segundo turno é outra. Os dez minutos diários de televisão não devem fazer diferença grande em sua campanha, cuja base é um sofisticado esquema de comunicação calçado nas redes sociais e WhatsApp, pensado para parecer amador. Aparecer mais profissional na televisão poderá minar sua imagem se outsider. E não poderá fugir dos debates na TV, que entre dois e não dez adversários, tente a ser menos intestinal.

Por tudo isso, o segundo turno provocou muxoxo entre seus eleitores, crentes numa vitória já no primeiro turno, e receio entre seus aliados, que reconhecem a dificuldade do ex-capitão em debater no plano racional.

No eleitorado é espantoso ver as entranhas sociais expostas. As candidaturas centradas em argumentos e propostas, à exceção de Ciro Gomes, foram fragorosamente derrotadas, talvez por representaram a política tradicional, que vive seu ocaso. João Amoedo e Cabo Daciolo surpreenderam, vencendo Marina Silva e Henrique Meirelles. Agora terão que se posicionar, algo especialmente desconfortável para Amoedo.

Mas nada expõe tão bem as nossas entranhas quanto a eleição para a Câmara Federal. No voto que elege o representante ideal de cada um, destacaram-se policial, pastor e palhaço, além de pseudojornalistas dados ao escândalo.

Minha conclusão é que a artista plástica Adriana Varejão é uma profeta. Sua obra mais conhecida, os azulejões, circulam pela imprensa em imagens bidimensionais, que significam o que a gente prefere ver, enquanto a ideia central, que são as entranhas para além do belo ampliado, só são percebidas por quem se dispõe ao desconforto de olhar de perto. E a imagem é terrível.

 
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