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A escolinha do professor Jair

Se o Congresso Nacional já era ruim, conseguimos a proeza de piorar o elenco. E muito.

Gente boa e necessária não conseguiu se reeleger ou voltar a Brasília. Entre outros tantos, Cristovam Buarque, referência em Educação; João Paulo Papa, craque em Saneamento Básico; Eduardo Suplicy, profeta da Renda Básica; Roberto Freire, moderador nato; Luiz Carlos Hauly, que estava bem adiantado com a reforma Tributária.

Literalmente, na intenção de limpar Brasília, mandamos pelo ralo a criança junto com a água suja da banheira. Haverá consequências.

Em apenas 48 horas após a promulgação do resultado, alguns dos novos eleitos, notadamente os que figuram entre os mais votados, já mostram a que vieram. Antes de cita-los, porém, analiso a causa.

Jair Bolsonaro, maior vitorioso do domingo, franco favorito a inquilino do Alvorada, fez escola. As urnas fizeram de seus alunos um não-partido, o PSL, a segunda bancada da Câmara Federal, com 52 representantes.

O trabalho de um deputado é, se não injustamente, no mínimo precariamente avaliado pela sociedade. As sessões plenárias acontecerem três vezes por semana tem uma razão prática: custo. Seria improdutivo levar a Plenário todas as propostas, impondo um debate sem fim.

Por isso as casas funcionam com filtros, chamados comissões temáticas. É nelas que os parlamentares mais trabalham, de acordo com suas capacidades e possibilidades partidárias.

Então vejamos a atuação de Bolsonaro em comissões. O levantamento é do Estadão.

Na chamada “comissão militar”, oficialmente Comissão de Relações Exteriores e de Defesa Nacional, tema dito caro ao candidato, o deputado faltou a 70% das sessões. Sequer no dia em que seu único projeto de lei tramitou ele compareceu. Tratava de novas regras de combate ao terrorismo e foi retirado da pauta. Resta saber se, “saído” do Exército por planejar atentados terroristas, o ex-capitão fugiu constrangido.

Em outra ocasião, a comissão aprovou relatório que propõe alteração em artigos dos códigos Penal e Militar, bandeira do candidato Jair. Sabe aquela coisa do policial ter que atirar para matar? Mais ou menos por aí. Mas onde estava Bolsonaro? Gravando para as redes sociais.

A cereja do merengue vai agora: mais uma vez cabulando, Bolsonaro desperdiçou a chance de se manifestar sobre duas moções aprovadas: uma de louvor aos soldados brasileiros que atuaram no Haiti, e outra de repúdio ao governo da Venezuela por descumprimento da ordem democrática. Tá ok?

O efeito da escola parlamentar bolsonarística é a Câmara que elegemos no domingo. Desde então, Kim Kataguiri se lançou candidato à presidência da casa, ameaçando os pares com pressão pelas redes; Alexandre Frota publicou que seu filho foi concebido numa suruba com a mãe do garoto, a bartender de um hotel e alguma cocaína; Vinicius Poit avisou que, ante um hipotético, e apenas hipotético aumento de salário dos deputados, votará contra e, se perder, abrirá mão da diferença.

Tudo leva a crer que os distintos aprenderam atuação parlamentar pelo YouTube assistindo as performances do professor Jair – que no caso de Kim e Poit ainda conta com João Doria. Estarão a serviço dos interesses das pessoas ou dos likes e oclinhos que poderão receber a cada lacração virtual?

Se Bolsonaro já tinha dificuldade em controlar a si próprio, Gal Mourão e Paulo Guedes, agora tem uns cinquenta para se ocupar. Haverá tempo para governar?

 
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2 Comments  comments 

2 Respostas

  1. Fre

    Leozinho as coisas não acontecem por acaso. Raciocínio é privilégio. Como debater entre privilegiados?