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João, Jair e as facadas

Duas facadas marcaram o primeiro turno das eleições de 2018. A primeira, em Juiz de Fora, atentou contra a vida do candidato Jair Bolsonaro. A segunda, no estado de São Paulo, acertou Geraldo Alckmin.

Há diferenças essenciais entre uma e outra. Adélio Bispo atacou pela frente. João Doria, pelas costas. O ferimento em Bolsonaro foi físico, ele teve a sorte de ser prontamente socorrido pela Santa Casa e se recupera bem. Saravá! Alckmin, ferido na alma e nas urnas, talvez jamais se recupere.

Nelson Rodrigues atribuía a Roberto Marinho uma frase que é excelente conselho: “Prefiro ser traído a desconfiar de todo mundo.” Procuro exercer e recomendo.

Mas admito que no plano doméstico o verbo preferir pode soar exagerado. Se viver desconfiado das pessoas queridas é o inferno na terra, a traição dentro de casa é ferida que nunca fecha, notadamente se acontece por motivo torpe, como sanha eleitoral.

A facada de João Doria em Geraldo Alckmin acontece em três tempos. Começa quando o ex-prefeito, politicamente apadrinhado pelo ex-governador, logo que empossado mete o louco e inicia campanha nacional para a Presidência da República, causando, além do constrangimento da traição aos olhos de todos, abalo à imagem de seu fiador.

Frustrado o plano A, principalmente pelo declínio da popularidade entre o eleitorado abandonado, o plano B se revela a segunda etapa da punhalada. Candidatando-se a governador, deixou o padrinho com dois palanques, ou um pé em cada canoa, e sabemos como acaba quem pisa em canoas distintas que se afastam.

Para piorar, a parte B-2 da traição foi atacar abaixo da linha da cintura Márcio França, atual governador de São Paulo, que foi vice de Alckmin leal e discreto, e articulador da aliança ampla que elegeu Doria prefeito. Mais constrangimento para Alckmin, que aos olhos dos simpatizantes do afilhado, não teria sido capaz de escolher o próprio vice.

A conclusão da traição vem com a chapa bolsodoria, ajudando a enterrar a campanha de Geraldo Alckmin no estado que o elegeu por quatro vezes. A candidatura de Alckmin acabou na quarta colocação, tanto no Brasil quanto em São Paulo, abaixo de 5% e de 10%, respectivamente. É claro que outros fatores contribuíram, porém são todos digeríveis.

Não satisfeito, Doria ainda sapateou sobre o caixão, acionando o plano “Miami-Orlando”. Na primeira reunião dos tucanos, realizada dois dias após o primeiro turno, ensaiou defesa da tese exposta por Orlando Morando, prefeito de São Bernardo do Campo, de abreviar o mandato de Alckmin na presidência do PSDB.

Voltando a chapa bolsodoria, a torpeza do cálculo, logo identificada pela tropa, levou à recusa do apoio. Primeiro colocado para o Senado em São Paulo e aliado do ex-capitão, Major Olímpio gravou vídeo desancando o oportunismo, rechaçando o apoio e lembrando que, em passado recente, Doria desprezava Bolsonaro.

O militar pode não conviver muito com seus cachorros de Angra dos Reis, até porque tinha a Val do Açaí para trata-los, mas deve lembrar da frase de outro Roberto, o Jefferson: “Não brinco com cachorro que já mordeu a mão do dono.”

Jânio Quadros, onde estiver, que se cuide. Seu legado de demagogo-mor sem limites para criação de factoides, cujo auge foi o auto-golpe que descambou para a ditadura militar, está seriamente ameaçado pelos candidatos líderes nas pesquisas em São Paulo e no Brasil, João e Jair.

Esta crônica é uma homenagem a Moa do Katende, mestre de capoeira assassinado na Bahia na madrugada da segunda-feira 8/10/18, aos 63 anos, com doze facadas desferidas por um apoiador de Jair Bolsonaro.

 
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