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A praga do amarelinho no laranjal mineiro

Na eleição de 1998 para o governo de São Paulo a “praga do amarelinho”, que dizimava laranjais, foi tema central. Vinte anos passados, chegou a Minas Gerais, metaforicamente falando.

Focado em plantar bancadas legislativas, o partido Novo, conhecido pela cor laranja,  registrou candidaturas a cargos do Executivo por estratégia ou mera formalidade. Nota-se que funcionou. O candidato a presidente da República teve bom desempenho, alavancando votos na legenda e conquistando oito cadeiras na Câmara Federal.

A maior surpresa, no entanto, foi em Minas Gerais. Candidato a governador pelo Novo, o laranja Romeu Zema passou para o segundo turno em primeiro lugar, e hoje tem o dobro das intenções de voto do tucano Antonio Anastasia: 66% X 34% dos votos válidos segundo o Ibope.

Surpresa por que ninguém acreditava na candidatura. O próprio partido Novo transferiu só R$ 360 mil para o candidato. Troco para campanha de governador. Os controladores da construtora MRV doaram quase dez vezes mais a Anastasia (R$ 300 mil) do que a Zema (R$ 35 mil). A estrutura de campanha era mínima, praticamente virtual.

Virtual até demais. Hoje a repórter Patrícia Campos Mello da Folha de São Paulo revelou os esquemas de disparos por WhatsApp contratados por campanhas eleitorais. No caso de Zema, a campanha declarou ao TSE o pagamento de R$ 200 mil à Croc Services por impulsionamento de conteúdos, aproximadamente 20% do total de gastos. O diretório do Novo em Minas pagou R$ 165 mil à empresa.

Indagado pela reportagem, Pedro Freitas, sócio-diretor da Croc Services, se enrolou para explicar os termos da prestação de serviços. Começou alegando que aspectos legais eram da conta do candidato, depois recuou dizendo não saber se prestara serviços, e então enviou mensagem informando que vendeu pacotes de disparo de WhatsApp em massa.

A Folha apurou que dias antes do primeiro turno os mineiros receberam mensagens vinculando Zema a Jair Bolsonaro, sendo que o candidato a presidente do Novo era João Amoedo.

O problema de acertar sem querer em disputa eleitoral é que, diferente de um cavalo azarão no turfe, onde o ganhador bota o prêmio no bolso e vai celebrar, em eleição, depois da vitória, vem a obrigação de governar, o que é uma responsabilidade vertiginosa.

A começar pela formação de equipe. Os nomes nacionais do partido, Gustavo Franco e João Amoedo, estarão dispostos a trocar Ipanema pela longínqua Cidade Administrativa em BH? É o mínimo que a responsabilidade lhes impõe.

Outro problema é a composição com a Assembleia Legislativa. O Novo fez três dos 77 deputados estaduais mineiros. Para governar, terá que compor com as forças que costuma chamar de “velha política”, abandonar o discurso confortável de que composições não vêm de graça e criam dívidas a serem pagas com cargos.

Como vai reagir o eleitorado? Palpite: a praga do amarelinho, representada pelos manifestantes que se vestiram de CBF e foram para a rua mudar o Brasil sem saber como, pegou fundo no laranjal.

 
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