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Da síndrome de vira-lata para a síndrome de chihuaua

Lula se valia da máxima “complexo de vira-lata”, cunhada pelo Nelson Rodrigues, para atacar toda e qualquer pessoa que ousasse divergir de sua volúpia de grande líder.

Não reconhecer que ele era “O Cara” bastava para o diagnóstico. No auge do delírio, 87% dos brasileiros concordavam com ele. Nas redes e nas ruas, os mais exaltados debochavam dos fatos e espantavam os divergentes como cachorros vagabundos.

A economia ia bem, o país crescia, os pobres ficavam menos pobres, os ricos ficavam mais ricos, e todo o mais era irrelevante. Lula foi reeleito depois do mensalão, elegeu e reelegeu Dilma com Lava Jato, com tudo.

Delfim Netto tem uma definição ótima: “O nível do mar que subiu e o barco acompanhou, mas Lula acha que fez a maré-cheia.”

Em 2008 veio a crise global e Lula chamou de marolinha. Distribuiu lanchas para ricos e pranchas de isopor para pobres, financiadas a prazo. Quando as faturas começaram a estourar, vieram os primeiros caldos, e alguns naufrágios, até que em 2013, nadando cachorrinho, a turba começou a rosnar.

Das areias da Barra da Tijuca um cachorro-louco começou a latir. Ninguém deu bola. Achávamos folclórico. Mas a atenção em seu entorno crescia. O que não falta nesses casos é cachorro louco para latir em coro.

Latia contra mulheres, gays, negros, índios, e a turma ria como costuma fazer com o cachorro que persegue bicicleta. Ganhou simpatia, entrou em algumas casas e, mesmo roendo ou sujando o estofado que custou tão caro para ser conquistado, continuávamos achando uma piada.

O resultado é que dentro de nove dias o cachorro-louco Jair Bolsonaro deve ser eleito presidente da República. Sem receber alta do complexo de vira-lata, adotamos o complexo de chihuahua: mesmo insignificantes, estamos convencidos de que dá para resolver os problemas latindo.

Para piorar, lá dos Estados Unidos vem o exemplo do pitbull que late para qualquer coisa diuturnamente. Se ninguém reage é porque sabe que o pitbull morde.

O ridículo buldogue inglês rosnando para o continente europeu ninguém daqui percebe, logo não considera que ele tem dez vezes o peso de um chihuahua.

Como no mundo globalizado o Brasil não termina depois da arrebentação, o mundo olha para as nossas praias sem acreditar no que está acontecendo. Liberal americano, ultradireitista francesa, o Santo Papa, artistas, intelectuais, imprensa conservadora e progressista: todos chocados.

Elogios vindos de fora, só o do presidente do Chile, com ressalvas no campo humanista, e o de um ex-líder da Ku Klux Klan, a seita extremista que defende o terrorismo para extermínio dos diferentes, sobretudo dos negros e também católicos e judeus – motivo pelo qual o KKK critica a proximidade de Bolsonaro com Israel.

Para piorar, a matilha cresce e a latição aumenta. Só os ecos da semana que passou seriam suficientes para destroçar nossas relações internacionais:

. O general para a Educação defendeu criacionismo da escola e revisionismo histórico;

. O general reeleito deputado federal propôs prender ministros do Supremo;

. O civil que fala pelo agronegócio comparou o Acordo de Paris pelo Clima com papel higiênico;

. O mesmo civil do agro considera um absurdo falar em desmatamento zero;

. O general candidato a vice disse que a Nação herdou a indolência do índio, a malandragem do africano e a cultura do privilégio dos ibéricos;

. O general para infraestrutura se disse saudoso do seu tempo de tenente (ditadura militar), quando não havia Ministério Público e Ibama para “encher o saco”;

. O general da energia elétrica quer retomar Angra 3 e mais usinas da Amazônia;

. O cotado para a Casa Civil nega o rombo na Previdência;

. O ex-capitão candidato a presidente apoia Jerusalém como capital de Israel e fala em mudar para lá a embaixada brasileira;

. O mesmo ex-capitão compara hidrelétricas a um galinheiro no fundo do quintal para dizer que, se vendermos para os chineses, corremos o risco de ficar sem ovos;

. O ex-capitão ainda anulou a imprensa, dizendo que seu contato é direto com as pessoas e, dada a legislação eleitoral, o jornalismo reproduz o que ele escreve nas redes sociais sem direito a contestação;

. O civil da Economia, desautorizado pelos militares em seu plano de privatizações, oferta uma estrelinha chamada golden share para ver se dribla os tanques;

. O único que não late costuma ser o que morde: General Heleno está cada vez mais eminência parda.

As consequências de tantas sandices e incertezas, com o mundo em crise e à beira de uma guerra comercial, são imprevisíveis.

O mínimo que dá para prever é que, desse jeito, passaremos mais alguns anos correndo atrás do rabo ou nadando cachorrinho até que apareça um salva-vidas. Ou por outra: já apareceu. Ashanagará!

 
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