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O que a reserva não aprendeu com a Globo

Quando Luciano Huck era pré-candidato a Presidência, sobrava pelas redes gente concluindo que a candidatura seria do interesse da TV Globo. Raciocínio tosco.

Ora, a TV Globo sempre teve o bônus do poder, próprio de todo grande veículo de comunicação, em qualquer parte do mundo, a qualquer tempo na história. Por quê desejaria assumir o ônus de um eventual fracasso tendo o presidente da República diretamente associado ao plim-plim?

Como todo brasileiro nato com no mínimo 35 anos de idade pode se filiar a um partido político e disputar a eleição, pré-requisitos que Huck dispõe, a família Marinho chamou o contratado ao Jardim Botânico e traçou a fronteira: teria que escolher entre a candidatura e o Caldeirão.

Ainda que as qualidades pessoais que notamos em Luciano Huck faltem a Jair Bolsonaro, este goza dos mesmos direitos políticos, e as Forças Armadas nada poderiam e menos ainda deveriam fazer contra sua candidatura. Bastou o bom papel de manter distância institucional da candidatura e do processo eleitoral.

A mesma coisa não podemos dizer dos oficiais da reserva. Com liberdade individual para tomar posição política, e inclusive concorrerem, como é o caso do general Mourão, cada vez mais a turma do pijama entra no processo eleitoral, dando entrevistas para expor seus projetos de país, falando como ministros pré-empossados.

Sem entrar no mérito das declarações, suficientes para colocar qualquer governo em estado de crise permanente aqui e alhures, a festa do pijama na campanha já é o bastante para a associação das Forças Armadas com o governo que provavelmente será eleito no domingo. A sociedade não percebe a diferença entre membros da ativa, da reserva ou reformados.

Disso deriva que, um eventual fracasso de um provável governo Bolsonaro prejudicaria a boa imagem que as Forças Armadas reconstruíram depois do ocaso do regime militar.

Para piorar, o candidato-capitão reformado, que “foi saído” do Exército por planejar uma série de atentados terroristas contra o próprio Exército, se inspira no que há de pior na história da instituição. Faz questão de manter sua imagem associada ao torturador Ustra. Olhamos para ele e pensamos na bomba do Rio-Centro ou nos porões do DOPS, não nas missões de paz e muito menos na defesa da Amazônia.

Na Folha de hoje o Celso Rocha de Barros escreveu citando Elio Gaspari: os militares e policiais que controlavam do porão logo se tornaram bandidos comuns, que os generais temiam que instaurassem a baderna na hierarquia. Aproveitaram-se do direito de atuar à margem da lei para ganhar dinheiro. Um célebre torturador tornou-se chefe do jogo do bicho no Rio de Janeiro. Outros se envolveram com esquadrões da morte, aquela turma que cobra dez para matar bandido e vinte para matar seu cunhado e mentir que ele era bandido.

Bolsonaro representa a turma que não admitia voltar dos palácios para a caserna e, para impedir a adequação, se dispuseram a tocar o terror. Votar nele, mais do que devolver os palácios à caserna, é entregar os palácios aos porões. Aderindo ao provável governo, a reserva se confunde com o pior do passado das Forças Armadas.

Não por acaso, na entrevista ao Jornal Nacional o ex-capitão só falou do apoio da TV Globo à ditadura militar, fingindo desconhecer a autocrítica que as organizações Globo com grandeza e responsabilidade fizeram – e que ele jamais fará.

2018 prova que a Globo aprendeu com os erros. A reserva, não. Senhoras e senhores membros da ativa, tremei.

 
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