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Marcha da insensatez

Meio cheio está o copão de refrigerante de quem olha para o resultado das midterms, eleições de meio de mandato americanas, na câmara dos deputados. O partido Democrata, oposição ao governo Trump, terá maioria a partir de janeiro.

Meio vazio está o copão de quem esperava um equilíbrio de forças também no Senado, tão necessário à democracia, e que tradicionalmente vem com as midterms para moderar o poder da Casa Branca, enviando mensagens ao inquilino de turno. O partido Republicano, base de Trump, confirmou maioria no Senado.

A turma do primeiro parágrafo tem motivo para celebrar no Executivo. O Colorado elegeu para o governo do estado uma proposta que defende educação de base, saúde universal e energia renovável, pauta frontalmente oposta a de Trump. Para além disto, Jared Polis, mais do que o emblemático sobrenome, será o primeiro governador assumidamente gay dos Estados Unidos.

Casado e pai de dois filhos, Polis defende no Congresso o respeito à diversidade sexual, mas na campanha para o governo não fez dela um cavalo de batalha.

Outros motivos para o otimismo da turma do primeiro parágrafo nos trouxe o Guga Chacra n’O Globo de hoje. A oposição ao governo atual ganhou no voto popular nacional, confirmando que a maioria dos americanos desaprova a agenda trumpista, ainda que tenha sido insuficiente para vencer no Colégio Eleitoral.

Já a turma do segundo parágrafo vai dizer que o resultado é desanimador. Bill Clinton e Barack Obama tiveram resultados piores do que o de Donald Trump nas midterms em seus períodos e ainda assim foram reeleitos.

Um olhar mais amplo, pegando o processo eleitoral além do resultado, para mim é o mais preocupante.

Nesses tempos de emoções exacerbadas, redobro meu esforço para manter distante o cálice da paixão, que sempre pode contaminar a análise imparcial dos fatos. Não nego o cálice. Mantenho-o à vista e exposto a todos. Contrariando a tradição brasileira de análise política, publico voto e preferencia ideológica. Mas na hora de escrever ele nunca está à mesa.

Dito isso, e reconhecendo a possibilidade de estar me deixando levar pelas teorias conspiratórias, não consigo ver mera coincidência entre marcha migratória de centro-americanos em busca do sonho estadunidense e a narrativa trumpista na campanha das midterms.

Pelo que se nota no comportamento humano na era do big data, manobrar fisicamente milhares de pessoas é tão fácil quanto comover milhões delas. Quem em sã consciência afastaria a possibilidade de manipulação dos migrantes para reforçar o sentimento xenófobo?

Outro indício é que, em que pese a marca histórica na economia alcançada em 2018, com a menor taxa de desemprego dos últimos 50 anos (Obama baixou de 10% para perto de 4%, mas o recorde de 3,7% é de Trump), a narrativa central dos candidatos republicanos foi a questão migratória.

Mesmo com a resposta inventada por Trump, que enviou milhares de soldados à fronteira e chegou a falar em metralhar as pessoas, parece que a ficha não cai.

Ora, financeiramente falando, o aparato logístico para alojar e alimentar milhares de soldados na fronteira custa muito mais caro do que o mesmo esforço em ajuda humanitária. Mas obviamente a conta que estão fazendo é emocional, não racional. E, como sempre, nunca é espontânea.

 
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