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Mourão e Macedo serão os beneditos? / J. Levy

Jair Bolsonaro acumula façanhas. Pós facada, converteu votos de grupos vulneráveis que tratou ao longo da vida com desprezo, ganhando peso eleitoral na convalescência que lhe garantiu voto útil no primeiro turno. No segundo turno foi coroado como antipetista. Expressão maior do zeitgeist, o meme antagônico mostrava como: “Não vou perdoar o Bolsonaro por me fazer votar no PT.”

Já presidente eleito, Bolso mistura gols contra e a favor na várzea que a transição de governo virou em poucos dias. Em que pese o esforço admirável de Michel Temer em fazer o melhor que pode, da parte de quem entra a ausência de posições definidas vem tumultuando a partida muito além da conta.

Faltas diversas em política internacional, empurra-empurra com o Congresso, contas eleitorais pra lá de suspeitas, pito público direto da turma do supremo apito e até o juiz da Lava Jato confraternizando com o time vencedor no chuveiro, com direito a perdão público a quem fez gol de mão.

Para a institucionalidade tudo isso é muito ruim. Na economia, os atropelos diplomáticos indicam que a conta pode ficar alta, o rompimento com o presidente do Congresso enterra a possibilidade de votar mesmo parte da Previdência ainda este ano, as contas de campanha mal-explicadas ressuscitam o fantasma de 2014 no TSE.

Como se não bastasse, vem o Armínio Fraga, guru capitalista, lembrar que o sistema econômico tem esse nome porque supera o mercado financeiro, está “umbilicalmente” ligado a temas sociais, e para o governo dar certo, Estado de Direito, respeito às minorias, fim da desigualdade e cultura de paz no combate à violência são fundamentais.

E é aí que entra mais uma façanha de Jair Bolsonaro, por me fazer anotar aqui a esperança de que duas figuras em sua órbita ajudem a nos proteger: General Mourão e bispo Edir Macedo. Bem-ditos sejam.

O general e vice-presidente eleito tem evoluído bem em entrevistas, se mostra preparado e com noções claras – ainda que particulares – sobre política interna e externa, é fluente em outros idiomas, cita literatura, cinema e sua paixão por cavalos, características que, somadas e contrastadas com o resto do governo eleito, fazem do quatro estrelas um intelectual cheio de bossa. Ao Roberto D’Ávila, na Globo News, perguntado se praticava polo equestre, devolveu sorrindo: “Não, é um esporte muito violento.” E ainda citou Nelson Rodrigues: “Adoro.”

Nos costumes, área em que Bolsonaro se mostra mais atrasado, o contraponto de esperança para o Brasil, quem diria, vem de Edir Macedo. As galeras pelas redes implicam com a Fernanda Lima, supondo que ela, casada e mãe de gêmeos, pretenda destruir a família tradicional ou que faça campanha velada contra o ex-capitão. Mas quem prega e é ouvido por milhões de fiéis ao redor do mundo defendendo temas progressistas é o bispo, que desde o século passado afirma que a mulher deve decidir sobre o próprio corpo, inclusive com direito a aborto e ressaltando as implicações sociais da criminalização, e sobre homossexualidade diz que aceitaria um filho gay porque “se Deus respeita a livre opção de vida da criatura humana, por que não faria eu? “

Lembrando que o bispo da Igreja Universal do Reino de Deus controla 1) a TV Record, que deu um palanque de presente a Bolsonaro no mesmo horário do debate da TV Globo; 2) o PRB, com 30 deputados federais e um senador; 3) É aparentemente a maior influência em política internacional no governo eleito (o namoro com Israel é evangélico e os judeus estão segurando vela); 4) Anteontem ganhou autorização para criar a faculdade Republicana, voltada pata ciências políticas.

Em tempo: a expressão “será o Benedito?”  vem das especulações sobre quem Getúlio Vargas nomearia para interventor em Minas Gerais. Acabou se confirmando Benedito Valadares, extremamente popular. Foi quem alçou JK à política nacional, que se tornou muito maior do que ele.

Tem um paralelo com Joaquim Levy. Cacifado por Paulo Guedes para o BNDES, está comprometido com uma devassa nas contas do banco, plataforma bolsonarista. Como esse tipo de coisa se entrega mais depressa do que resultados na macroeconomia, em pouco tempo pode ficar mais popular do que o próprio Guedes, tornando-se um substituto conveniente para o até então insubstituível Posto Ipiranga.

 
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