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Gabinete 82 ou a toca do Leopardo

Se engana quem vê renovação na eleição de 2018. O que tivemos foi a expectoração da gripe de 2013, com todos os achaques e virtudes das expectorações.

Imaginar que uma gripe possa ficar cinco anos incubada pode parecer muito tempo para um estrangeiro. Mas um brasileiro minimamente atento saberá que é da nossa natureza demorar com as soluções.

No dia seguinte ao da Consciência Negra, falemos a respeito do nosso modo de resolver as coisas. Para acabar com a escravidão os EUA fizeram uma carnificina pontual seguida de reforma agrária.

Nós levamos quarenta anos para assinar a Lei Áurea, que só saiu depois do pacto de não fazer reforma agrária. A rigor, pagamos a dívida social com vários cheques pré-datados, essa jabuticaba que o vulgar chama “pra frente Brasil”. Parcelamos a carnificina, que com juros e correção ainda mata sessenta mil patrícios por ano, em maioria pretos e pardos com idade de soldado. Os que não morreram ou não ganharam a simpatia da Casa Grande no futebol ou no batuque, no 20 de novembro estavam servindo os brancos nos clubes, praias e piscinas.

Isto posto, num período acelerado como o atual, cinco anos (2013-2018) para expelir o catarro, está proporcionalmente adequado. Porém se engana quem acha que ter esparramado amarelo pelas ruas resolveu alguma coisa. Diria Il Gattopardo: Algo deve mudar para continuar como está.

O Leopardo em questão é o iminente senador 82, Romero Jucá. Líder de todos os governos recentes e relator de aproximadamente 80% das medidas provisórias pós-redemocratização, não foi reeleito mas, qual Zé Dirceu quando deixou de ser ministro, parece mais poderoso do que nunca – como indica o assunto do dia, que é o artigo do presidente do Supremo Tribunal Federal ministro Dias Toffoli, no El País.

Como o Leopardo do Visconti, com bigode e costeletas a la Burt Lancaster, com tudo, Romero Jucá propôs em 2016 “estancar a sangria”. Com o Supremo, com tudo. O artigo do ministro Toffoli parece ser a materialização da proposta.

Além de ser o chefe do Poder Judiciário, Toffoli foi advogado do PT, advogado-geral da União, presidente do TSE e indicado ao STF por Lula, tinha como assessor em seu gabinete o general Fernando Azevedo e Silva, já indicado ministro da Defesa de Jair Bolsonaro. É, por assim dizer, o Nelson Jobim que tem pra hoje.

O artigo coloca Toffoli como interlocutor-geral do pacto. Empresários e o chamado “mercado” querem a reforma da Previdência a qualquer custo. As autoridades que podem vota-la querem escapar do xilindró (se Lula está preso, ninguém está seguro). Funcionários públicos, notadamente magistrados e militares, não querem saber de perder seus privilégios.

E o povão? Ora, são quase trinta milhões de subutulizados (desempregados, desalentados e os que poderiam estar trabalhando mas por alguma razão não estão) e outros tantos subempregados.

Quem pode falar com eles? Os dois candidatos que foram ao segundo turno em 2018, e que teoricamente comandam as duas maiores bancadas do Congresso. Jair Bolsonaro já foi claro: trabalhador terá que escolher entre ter direito ou ter emprego. Sabe que sem a reforma que o marcado quer não conseguirá governar. Lula dirá o que ao PT? Tenho um palpite: “Se for o preço para um pacto geral que me tire da cadeia, façam.”

Os demais partidos, chamados moderados, Centrão e que tais, estão com o Judiciário e com o mercado. Os radicais podem decidir protestar e se negar a falar com Toffoli “the good cop”. Daí vão para a rua protestar, em encontro marcado com o general Azevedo e Silva “the bad cop”.

Bolsonaro dizia em campanha que Haddad presidente soltaria o Lula. A mensagem colou porque Haddad ajudou indo muito à carceragem. Eu avisei aqui. Agora não é mais Lula livre, é todo mundo livre. Só faltava combinar com Sérgio Moro. Não falta mais.

 
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