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Queiroz, o cordial

Fabrício Queiroz é o retrato fiel do homem cordial. Um pobre-diabo brasileiro que fala mal o português, nutre preconceitos clássicos do machão, sente que tem mais direitos do que deveres.

Depois de faltar ao MP-RJ por quatro vezes, apareceu no SBT como que surpreendido por aprender na marra tudo o que a sociedade não foi capaz de lhe ensinar.

A título de esclarecer o país sobre seu sumiço de aproximadamente vinte dias, em pouco mais que vinte minutos de entrevista à repórter Debora Bergamasco escancarou com candura nossos vícios e condenou a BolsoFamília à novas explicações.

Num relato marcado pela escatologia, com duplo sentido, falou muito de fezes, urina, ânsia de vomito e revelou ter se submetido ao exame de toque pela primeira vez agora, aos 53 anos, porque “sou meio contra isso”. No sentido filosófico mais amplo, escatologia se relaciona com o período depois do fim de tudo, ou a era do Messias.

Das explicações que adicionou à lista da já constrangida BolsoFamília, se destacam os serviços de segurança pagos pelo contribuinte fluminense prestados à mulher e aos filhos do primeiro-filho e senador eleito, deputado Flávio Bolsonaro.

Implicou também a própria família, dizendo que suas próprias filhas, enteada e mulher, participavam das campanhas eleitorais dos Bolsonaro desde sempre e, quando houve oportunidade, pediu emprego para elas, posto que ele é quem “gera dinheiro” em casa. Sabemos que foi atendido. E que acredita meritória cada nomeação.

Perguntado sobre a vida da filha, professora de ginástica contratada pelo gabinete de Jair Bolsonaro enquanto dava expediente numa academia no Rio, sendo especializada em choque elétrico, contou com tristeza que a moça tem sofrido crises de ansiedade mas que sobre a vida ela, ela que fale à Justiça.

Partidário da agenda bolsonarista, logo armamentista, contou que o enteado suicidou-se com sua arma dentro de casa.

Carteirou dizendo que 25 deputados lhe prestaram solidariedade. E que não foge da Justiça porque “é homem”. Em seguida respondeu quando vai comparecer ao MP. Depois de um sorriso algo cínico, fixou o olhar na câmera e mandou “Tão logo… tão breve.”

Sobre o médico que lhe atendeu quando do cano no MP, disse que é “o melhor”, o doutor Vladimir, mas que não se lembra do sobrenome, tampouco de como se chama o hospital onde foi atendido.

Dos resultados dos exames que recebeu, está mais preocupado com uma bursite no ombro do que um câncer maligno com possibilidade de metástase no fígado.

Insistiu na versão do presidente eleito Jair Bolsonaro sobre os dez cheques de quatro mil reais que foram depositados na conta de D. Michelle. Resta saber se o depósito original do empréstimo, declarado ou não à Receita, será encontrado em sua conta.

A versão sobre como ganhou ou “fez” dinheiro já teve bastante comentários. Aquela coceira no nariz merece mais um: a linguagem corporal diz que é coisa de Pinóquio.

Para encerrar, mais uma dúvida. Queiroz e filha dizem que foram respectivamente exonerados dos gabinetes de Flávio e Jair Bolsonaro treze dias antes das eleições, enquanto o mestre Elio Gaspari diz que as exonerações foram em sete de dezembro, dia seguinte à publicação do relatório do COAF sobre a operação Furna da Onça, desdobramento da operação Lava Jato.

No final de outubro o general Mourão disse que “há duas semanas” Sérgio Moro, então juiz da Lava Jato em Curitiba, esteve com Paulo Guedes, quando foi convidado para o ministério da Justiça de Bolsonaro, que vem sendo chamado de superministério porque vai absorver o COAF, que hoje está na Fazenda, que será de PaGue. As datas do convite e da versão dos queirozes sobre a exoneração coincidem.

 
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