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Os recordes de Temer e Bolsonaro

Entusiastas dirão que Temer conseguiu evitar a abertura do alçapão no fundo do poço – já não falta quem o diga, aliás. Em contraponto, críticos vão dizer que o instinto de sobrevivência das nações impera depois de depressões econômicas.

Deixemos a tarefa da síntese para os historiadores. Ante o hercúleo trabalho que terão narrando o período atual, dois anos e meio não é o que vai onerar a faina.

Cientificamente o que temos para hoje é a impopularidade recorde, emparelhada com a margem de erro de qualquer pesquisa. Só 5% aprovam Temer. Reconhecida a tempo pelo próprio governo, a rejeição ajudou o Presidento a governar. Vista sob qualquer viés, a lição que fica é a de que tudo na vida, “exata e precisamente” tudo, tem seu lado bom.

Temer assumiu com um norte bem definido e bem combinado com o stablishment. Batizada de Ponte para o Futuro, a prioridade era salvar a política externa, a Petrobrás, o BNDES e as finanças, entregues respectivamente a José Serra, Pedro Parente, Maria Silvia Bastos Marques, Henrique Meirelles (Fazenda) e Ilan Goldfajn (BC). Só os dois últimos sobreviveram pessoalmente. Ainda assim o norte foi mantido, com substituições escaladas no banco de reservas do mesmo stablishment.

No Congresso o essencial do trato estabelecido era passar as reformas do Trabalho e da Previdência. Os responsáveis pela interface foram Eliseu Padilha, Moreira Franco e Carlos Marun. A primeira passou. A segunda morreu enterrada no porão do Jaburu, com o próprio Michel Temer estrelando um podcast produzido por Joesley Batista e a PGR. A partir dele, todos o esforços para salvar o organismo governamental se voltaram para “manter isso”, ou seja, o governo.

Aqui não importa se a gente acha que foi ponte, pinguela ou se demos com os burros n’água. Tampouco se a bússola estava bem calibrada. Importante é que havia um norte claro para quem estava na ponte de comando e que esse pessoal entende de política e de governo – noves fora o erro crasso (político) de criar o teto de gastos antes de votar as reformas.

E a partir de amanhã, o que podemos esperar do governo Bolsonaro? Não há norte claro sequer para a Economia, praticamente ninguém tem experiência política ou de administração pública, das cinco estrelas do governo quatro já estão carimbadas por denúncias, as contas seguem estouradas, a base parlamentar é inexperiente, movediça e escandalosa, e os estados e as cidades, responsáveis pelos serviços que afetam o dia-a-dia das pessoas, estão em maioria quebrados.

Tudo isso sem contar uma oposição experiente, raivosa e que promete ser implacável, além do inexorável imponderável (greves, crises externas etc), inflacionado pela quantidade de malucos no entorno do presidente que não perdem uma chance de ficar calados, a começar pela parte eleita da prole, cujo único que pode ser considerado razoável, Flávio, é justamente o mais implicado na praga do amarelinho que abateu o laranjal do presidente eleito.

Cientificamente, a expectativa positiva da população coloca um peso extra nas costas de Bolsonaro. Segundo o DataFolha, em agosto deste ano 23% dos brasileiros estavam otimistas com a melhora na Economia já para os primeiros meses do governo que assumirá amanhã. Agora no final de dezembro eram 65%, recorde na série histórica que começou em 1997.

Como a gente sabe, satisfação é = realidade – expectativa. Isto é, quanto mais se espera, maior a chance de ficar insatisfeito. Resumindo, o recorde que ajudou Temer a governar é o mesmo que pode atrapalhar Bolsonaro, provando que se tudo na vida tem um lado bom, o inverso é verdadeiro, e também tem o lado ruim.

 
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