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Steve Jobs e Zé Cabaré

No saudoso bar São Pedro São Paulo conheci o José Egreja. Baita figura. Usineiro e fazendeiro de cana, família de mecenas das artes, formado em arquitetura, compositor refinado e boêmio dedicado – característica que lhe rendeu o apelido de Zé Cabaré. Foi deputado constituinte, exerceu outros mandatos e, de perfil e relações aristocráticas, teve atuação progressista.

Por pouco não ficou bilionário. No auge do etanol, recebeu oferta de R$ 900 milhões por suas usinas. Com aquele jeito simples de quem não precisa de mais nada, comentava: sei lá que número é esse; vou esperar arredondarem em um bilhão. Mas daí veio o pré-sal, o tesão do mercado mudou de lugar e o resto a gente sabe.

Outra paixão do Zé Cabaré eram os cavalos, se não me engano os árabes, que têm aquela cara delgada. Admirador da beleza, Zé não gostava dos cabrestos de couro ou náilon, que cobriam mais do que ele gostaria na cabeça do animal. Arranjou a solução: desenhou um cabresto em fio de aço galvanizado, quase imperceptível. Vendeu diversos e, entusiasmado, brincava dizendo: agora sim tenho um bom negócio.

Problema: o cabresto é tão bem feito que não estraga. Dura muito mais do que os cavalos e seus donos.

Lembrei dos cabrestos do Zé Cabaré lendo os articulistas mundo afora, apurados com o destino da Apple. Como já falaram bastante, a companhia perdeu 75 bilhões de dólares em valor de mercado. Ricardo Amorim desenhou no Manhattan Connection: é como se o Bradesco desaparecesse.

No New York Times o Kevin Roose admitiu que a culpa é da mãe dele, uma senhora aposentada que vive em Ohio, applemaníaca de carteirinha que hoje tem um iPhone 6, um Apple Watch da primeira geração e um MacBook que se fosse gente já teria bisnetos. Está satisfeita e não pensa em up-grade para nenhum deles.

Kevin acredita que antes do que a China, o problema da Apple, assim como o dos cabrestos do Zé Cabaré, está na qualidade dos produtos. Isto é:  Mrs. Roose adora a Apple mas, se seus aparelhos estão funcionando, não há necessidade de substituição.

Eu trocaria meu iPhone 5 por um 7, mas ainda não apareceu promoção que justifique. Meu terceiro MacBook entrou no sétimo ano e vai muito bem, obrigado. (Na verdade a tecla i – casa de ferreiro, espeto de pau – soltou há alguns anos, mas funciona mesmo assim e eu tomo cuidado para não perder quando em trânsito.) Meu iPod já é do pequeno mas ainda com a rosquinha revolucionária e guarda meus discos prediletos. Outro dia levei na escola e a molecada que têm vinte anos de idade e só usa Spotfy não sabia o que era, tampouco para que serviria a rosquinha.

Toda essa tralha, principalmente o computador e o telefone, já vieram com muito mais recursos do que eu gostaria. E inclusive reclamei na compra por algo ainda mais simples. No caso do telefone, demorei para aderir e creio que cheguei ao 5 porque os demais sofreram perda total em acidentes variados. Agora, com adoção da lente de proteção para tela e capinha de silicone, está praticamente blindado.

Desse mercado de serviços e acessórios eu gostaria de saber os números. Meu palpite é que a China avança mais por aí. Os balcões que oferecem uns e outros são onipresentes em São Paulo, e tanto uns quanto outros costumam ser chineses, com algumas variações, sempre orientais, como o mais famoso deles, o Rei do iPhone da Santa Ifigênia, nascido no Líbano.

De qualquer maneira, torço pelo modelo Apple. Gosto de coisas que duram. Uso orgulhoso um paletó que foi do meu pai e que conta uns trinta anos. (Segredo: nunca foi lavado.)

Bem das pernas a empresa continua. Ainda segundo o Ricardo Amorim, só em dinheiro líquido espalhado pelo mundo os discípulos do Steve Jobs têm o equivalente a Bradesco, Itaú, Banco do Brasil, Petrobrás e Vale do Rio Doce somados.

 
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