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“Nova política” enferrujada

Órgãos públicos de todas as esferas administrativas não podem mais exigir reconhecimento de firma. Nem autenticação de cópia de documento. Ou pedir apresentação de certidão de nascimento e muito menos título de eleitor. Agora o servidor deve comparar a assinatura do cidadão com o documento de identidade.

Mais: cada repartição poderá criar um grupo de trabalho próprio para identificar burocracias e procedimentos exagerados e propor sua simplificação.

Agora adivinhe entre dois tipos de político quem é o autor da lei: um aristocrata pernambucano, hexaneto de colonizador, filho de governador, industrial, ex-presidente de entidade patronal, ex-deputado federal e atual senador pelo PTB; ou um youtuber que acabou de aterrissar em Brasília e botou pra quebrar.

Creio que a pegadinha está clara. O autor da lei, sancionada em setembro pelo presidente Michel Temer e já em vigor, é o senador Armando Monteiro (PTB-PE). Na última eleição ele disputou e perdeu o governo de Pernambuco. Perderam mais Pernambuco e o Brasil, que ficarão sem um quadro desse quilate.

De Serra Talhada para São Paulo, no final do ano passado o prefeito Bruno Covas conseguiu aprovar a reforma da previdência paulistana na Câmara Municipal. Essencialmente, aumentou a contribuição dos funcionários públicos de 11% para 14%. Isto é, igual o sorriso do Mario Quintana, pouco para quem dá e muito para quem recebe.

Ainda é algo paliativo, mas deu fôlego às contas da prefeitura e, minimamente, foi bom verificar a sensatez dos vereadores ao recusarem a ideia de usar possíveis recursos de privatizações para custeio da máquina, que a rigor é a mesma coisa que vender a prataria para fazer supermercado.

De qualquer maneira, custou caro. Secretarias, subprefeituras e outros cargos foram disponibilizados ou mantidos com os nobres edis. Na primeira tentativa, ainda sob o breve João Doria, o vereador Massataka Ota (PSB) ousou fazer oposição e perdeu vinte cargos.

A cereja do bolo no toma-lá-dá-cá veio com o decreto, baixado de supetão pelo prefeito Covas e sem ouvir a Câmara, oficializando burocracias mil para os aplicativos de carona na cidade, como Uber, 99 e Cabify. Doce na boca do vereador Adilson Amadeu, que segue encantando incautos taxistas. (Sobre máfia de alvarás, frotas e pontos, a gestão segue fingindo que não vê.)

E a velinha, quem soprou? Sem dúvida, o partido Novo, que em seu aniversário de dois anos da primeira eleição, entregou-se sem pudor à velha politicagem.

Tendo feito campanha defendendo com vigor a liberdade dos aplicativos e da livre iniciativa em geral, a vereadora Janaina Lima (NOVO) votou a favor da reforma da previdência e, sim, chegou a protestar contrariamente ao decreto dos apps. Mas se comparada à gritaria dos outro “novo”, Fernando Holiday (MBL/DEM), podemos dizer que foi bastante tímida.

A explicação para a posição da vereadora chegou na edição de hoje do Diário Oficial. Candidato derrotado a deputado estadual pelo partido Novo, João Grande, que também defendia a liberdade para aplicativos, ganhou a subprefeitura de Pinheiros.

É a mais emblemática, mas não a primeira demonstração de contaminação do Novo. Se institucionalmente o partido teve êxito quando dissuadiu internamente a ideia da vereadora Lima em criar o feriado da Mulher Empreendedora, rasgou o próprio estatuto ao manter filiado Leandro Lyra, vereador carioca que desdenhou da regra combinada e tentou saltar da Câmara do Rio de Janeiro para a Federal com mandato pela metade.

Igual fez Janaina Lima, o partido vetou a tentativa, publicou carta, mas deixou estar. Derrotado na eleição, Lyra reassumiu a vereança e parece estar em paz com a legenda.

Sabe aquela cor laranja que distingue o Novo? É ferrugem.

 
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