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Vassoura de bruxa no governo Bolsonaro

Com o que havia sido publicado até a noite de sexta-feira 18/1, Flávio Bolsonaro não era investigado nem tinha necessariamente culpa no cartório. Escrevi a respeito no texto anterior.

Inclusive a entrevista exibida naquela noite pela TV Record, gravada durante a tarde, era baseada na investigação sobre os queirozes, e até aquele momento implicavam, além de Fabrício e sua filhas, o primeiro-casal da República, Michelle e Jair.

Então veio o Jornal Nacional e enriqueceu o caldo mostrando que o senador eleito Flávio Bolsonaro, vulgo Zero Um, recebeu R$ 96 mil em dinheiro vivo num período de cinco dias, entre junho e julho de 2017, fracionados em 48 depósitos de R$ 2 mil. O ora ministro Sérgio Moro já escreveu que a prática indica lavagem de dinheiro e tentativa de driblar o COAF – órgão que agora está sob o seu guarda-chuva.

A coisa não parou por aí. Nesta manhã de segunda-feira 21/1, aniversário de três semanas (!) do governo Bolsonaro, já é público que Flávio Bolsonaro comprou R$ 4,2 milhões em imóveis num período de três anos, o mesmo em que Fabrício Queiroz movimentou R$ 7 milhões.

Com salários brutos de R$ 25,3 mil e R$ 10 mil respectivamente, Flávio e Fabrício atribuem a riqueza ao empreendedorismo. O deputado e senador eleito teria duas franquias de chocolates e investimentos imobiliários, e seu assessor “fazia dinheiro” comercializando caros usados.

Para quem entrou para a vida pública tendo só um Gol 1000 declarado por patrimônio, Flávio personifica o “sonho americano” representado pelas réplicas da Estátua da Liberdade instaladas na Barra da Tijuca e nas fachadas das lojas Havan.

A piada pronta, ingrediente básico da crônica política brasileira, fica por conta do endereço do imóvel original da fortuna de Flávio Bolsonaro: o descolado bairro das Laranjeiras. E outra: entre as receitas clássicas da Kopenhagen, marca representada pelo deputado, se destaca o chocolate Chumbinho.

Bom, tudo isso muda a explicação sobre a apelação de Flávio ao Supremo. Tendo acesso à investigação do MP-RJ sobre os dados do COAF, Zero Um correu para debaixo da toga do ministro Luz Fux. Pode ter sido um ato desesperado para salvar a própria pele, como aponta o pedido de anulação de provas. Mas não altera o fato de que, levando oficialmente a peleja à Brasília, prejudicou – e muito – o próprio pai.

Note, freguesa: o governo tem vinte dias, os poderes Judiciário e Legislativo ainda estão de folga e já temos esse espetáculo burlesco. Com o fim do recesso a tendência é piorar.

Como antecipei aqui, a suposta base do governo rachou antes de tomar posse em disputas internas, viagem à China, OakLavo dizendo que não é “guru dessa porcaria”, ativista filiado ao PSL acusando membro da comitiva chinesa de ter traficado cocaína no acampamento pró-impeachment.

Com a abertura do ano Legislativo, que deve começar em batalha campal pela Reforma da Previdência, o estica-e-puxa vai se acentuar. Pelegada, militares, barnabés, a fim de manter seus privilégios, ajudarão muito o trabalho da oposição.

Lembrando que CPI é um instrumento da minoria, precisando de apenas 1/3 de uma das casas legislativas para ser instalada, a chance da oposição emplacar a CPI do COAF é enorme. E, como também já botei aqui, há motivos para justificar a convocação de figuras centrais do governo, entre elas os super-ministros Moro, PaGue, o vice-presidente general Mourão e a primeira-dama Michelle Bolsonaro.

Piada derradeira, em homenagem ao empreendedorismo cacaueiro do senador Bolsonaro, a operação Furna da Onça poderia ser rebatizada por Vassoura de Bruxa.

 
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