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Notas soltas sobre ontem

Celso Daniel foi sequestrado, torturado e assassinado no estado de São Paulo. Diversas pessoas relacionadas ao caso, de garçom a legista, também foram mortas. É improvável que se mate tanta gente por aqui sem anuência do PCC. Assim como não se encomenda morte no Rio de Janeiro sem que milicianos sejam, pelo menos, informados.

Ontem o MP-RJ botou o bloco na rua e prendeu chefões das milícias da Zona Oeste, notadamente Rio das Pedras, capital do Estado Mínimo. Entre os alvos está o tenente Maurição, PM reformado e preso ontem, e o ex-capitão do BOPE Adriano Magalhães, foragido, cuja mãe e mulher trabalhavam no gabinete de Flávio Bolsonaro, que por várias concedeu honrarias de Estado a Magalhães, Maurição e outros mocinhos-bandidos supostamente envolvidos no assassinato da vereadora Marielle Franco e seu motorista Anderson Gomes.

Flávio Bolsonaro diz que as nomeações foram a pedido de Fabrício Queiroz, também PM, motorista e comerciante de automóveis que passou o fim do ano escondido do MP-RJ em Rio das Pedras. Amigo de Jair Bolsonaro desde antes do presidente ser pai, Queiroz, por afinidade, pode ser considerado tio de Flávio e irmãos.

Jair Bolsonaro, que já reverteu uma vasectomia, ensaia a segunda, desta vez extemporânea. Em Davos o presidente falou à Bloomberg: se meu filho errou, lamento, mas vai ter que pagar.

O suplente do senador eleito Flávio Bolsonaro é o empresário carioca Paulo Marinho, cuja casa no Rio serviu de QG à campanha de Jair Bolsonaro. Sem convite para a posse do presidente, Paulo Marinho passou o ano-bom em Miami.

Dizia Napoleão: dos dez prediletos do rei, nove acabam enforcados.

Jair Bolsonaro posou para fotos em um bandejão suíço onde, a despeito da intenção de um encontro que congrega líderes do mundo todo, almoçou sozinho. Diz um provérbio italiano: Chi mangia solo, crepa solo (Quem come só, morre só).

Sérgio Moro, em Davos, segue em retumbante silêncio sobre o BolsoGate, mas afirma que as instituições estão funcionando. O COAF seria uma delas? Órgão responsável por identificar as movimentações atípicas de Queiroz e outros tantos servidores da Alerj, o conselho foi transferido da Fazenda para a Justiça, a fim de  facilitar o trabalho do ora super-ministro Moro contra lavagem de dinheiro. Pelo código do consumidor, inclusive presentes são passíveis de troca ou devolução num prazo de pelo menos trinta dias. Está em tempo.

Enquanto a delegação brasileira desfilava em Davos, o presidente da República em exercício general Mourão recebia o embaixador alemão Georg Witschel, que se mostrou preocupado com a reputação “meio errada” do Brasil desde a ascensão de Bolsonaro, destacando preocupação com Direitos Humanos e Meio-Ambiente. No pequeno discurso em Davos, Bolsonaro adjetivou Direitos Humanos e apresentou dados errados sobre Meio Ambiente.

Dizer que o Brasil mantém as maiores florestas do mundo é diversionismo. Feio. Tanto quanto ficar lembrando dos erros do passado cometidos por outros países, sugerindo que o nosso desenvolvimento depende de possibilidades de desmatar. A ministra Teresa Cristina, representante da ala esclarecida do agronegócio, sabe disso e deveria deixar ainda mais claro o compromisso de preservação, sob o risco de ser vista pelos fregueses internacionais dos alimentos aqui produzidos como aquela mãe italiana que ameaça o filho dizendo: se você não comer tudo, eu me mato!

Há quem celebre os nem seis minutos de discurso de Bolsonaro em Davos. Motivos há. Curioso é quando o mesmo interlocutor defende os noventa minutos da palestra de PaGue aos convidados do convescote patrocinado pelo Itaú-Unibanco. Quem conversou com os presentes garante que foi um espetáculo. A mim, sem demérito à eloquência do professor Paulo Guedes, elogio de banqueiro a ministro das Finanças soa como o marido que, perguntado pela mulher se a roupa lhe cai bem, responde que ela está linda.

No mesmo dia, a chanceler alemã Angela Merkel e o presidente francês Emmanuel Macron se encontraram na fronteira para fortalecer laços por uma Europa humanista e transnacional. Gesto bonito. O encontro também poderia ser feito no Centro Pompidou. Encomendado pelo primeiro-ministro Georges Pompidou, foi desenhado pelos arquitetos italianos Renzo Piano e Richard Rogers, e montado pela siderúrgica alemã Krupp, responsável pelos canhões que garantiram a vitória da Prússia sobre a França em 1870 e bombardearam Paris na Segunda Grande Guerra. Uma tríplice aliança, símbolo da Krupp, aparece cunhada na estrutura de aço do Pompidou, que hoje os franceses adoram.

A Arábia Saudita suspendeu as importações de aves de cinco frigoríficos brasileiros. Há um esforço grande para atribuir tecnicidade à medida, mas ninguém acredita. É público que o mundo árabe está enfurecido com o flerte brasileiro com Israel “no tocante à qüestão” da mudança da embaixada para Jerusalém. Assim como não se encontra quem acredite que o Brasil ter defendido a criação de um Estado Palestino ontem, na ONU, tenha sido um rolé aleatório.

O novo representante do Itamaraty no Vaticano será Henrique Sardinha. Não consta que seja descendente de Dom Pero Fernandes Sardinha, bispo devorado pelos índios caetés em 1556 onde hoje fica o estado das Alagoas.

Entre as ofertas que fizeram a glória do Uber, talvez a mais atraente foi a do motorista calado. Já para chofer de carro com chapa-branca, o maior desejo do banco de trás parece ser condutores surdos. Com Queiroz na crista da onda, vale lembrar que o motorista de Antonio Palocci contou à Justiça do trajeto entre o banco Safra e o escritório de Lula com uma mala de dinheiro a bordo.

Cabo Clóvis era motorista do governador Paulo Maluf, que no banco de trás lavava roupa suja com D. Sylvia, em árabe. Um dia, no calor da discussão, o governador falou ao chofer ainda em árabe, que respondeu no mesmo idioma. Filho de uma negra baiana com um caixeiro viajante libanês, Clóvis era bilíngue. Ganhou posto bem remunerado na Alesp, onde passou décadas bastante discretas.

 
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