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A eleição no Senado e a função do DEM

É triste, eu sei, mas temos que conviver com isso: o Senado, a Câmara alta, é o melhor clube do Brasil. E de qualquer país. Casa de reunião dos melhores entre os melhores. Casa da prudência, da moderação, da sabedoria dos cabelos brancos. Se o nosso Senado é esse show bizarro, imaginem o resto do país.

A eleição de hoje foi mais uma vitória da chamada “nova política”, ou do que a Nação comprou por renovação. O novo presidente do Congresso, Davi Alcolumbre, é um representante típico do baixo clero, sem expressão e com longa carreira política, nenhuma ideia ou proposta exposta, que para ser eleito levantou-se contra um símbolo da velha política odiado pela maioria da opinião pública. A semelhança com o presidente da República não é mera coincidência.

Num processo que deveria ser do Poder Legislativo, tivemos influência desmedida dos poderes Judiciário e Executivo. Culpa do Parlamento, que se corroeu por dentro, feito cupim, cavando chicanas na própria estrutura.

O Judiciário operou na madrugada, com mais uma lamentável decisão monocrática, lavrada pelo seu presidente Dias Toffoli.

O Executivo trabalhou 24/7, se expondo a um risco desnecessário e muito além do limite da responsabilidade. Dizem que o governo venceu com a metade dos votos da Casa. Mas a que preço? Colocar um Severino no Salão Azul e expor ao Brasil mais um rolo de seu ministro-chefe da Casa Civil, corrupto confesso, agora sabido praticante de nepotismo cruzado.

O presidente do Senado é um jovem inepto, sem intimidade com seus pares ou com os três regimentos do Parlamento, vulnerável a ponto de paralisar uma sessão pelo furto do roteiro. Fez imenso papelão ao acumular candidatura e presidência dos trabalhos. Será constrangido pelos próximos dois anos pela intimidade nada republicana de manter em seu gabinete a nova mulher do ministro-chefe da Casa Civil.

Pior: Será o responsável por dar andamento ou não a um eventual processo de cassação do varão dos Bolsonaro, tendo baseado sua campanha no antagonismo a um símbolo de corrupção. Em um de seus discursos, criticou os colegas que fazem do mandato valhacouto – apesar de ter protegido Aécio Neves em 2015. Será cobrado. O apetite das redes, ruas e aeroportos não foi saciado com a derrota de Renan Calheiros. Muito pelo contrário. O soldado paga com sangue a fama do capitão.

Macaco velho, Renan flertou com a cumbuca, mas não meteu a mão. Bagunçou o picadeiro quanto pôde e na hora limite a cumbuca chutou, retirando a candidatura e acusando a Casa de se curvar a um processo fraudulento em dois dias de vexame federal. Obviamente não colou, mas é uma narrativa que serve a quem interessa a Renan, isto é, seus pares e operadores de sempre. Diferente daquele outro, boquirroto, Renan não disse, mas está se lixando para a opinião pública.

O que Renan queria além de ainda mais poder? Reabilitação junto ao mercado e seus operadores que, de novo, são os que lhe interessam. A Presidência do Congresso traria a possibilidade de usar sua experiência para transformar-se no “senhor reformas”, como sonhou Michel Temer.  Convenhamos que o alagoano goza de tais habilidades, tanto quanto ou mais que Eduardo Cunha que, apesar de tanto ou mais nefasto que Renan, em seu período botou a Câmara para trabalhar e assou bolos impressionantes, com o impeachment da Presidenta por cereja.

A chance de avançar a agenda econômica com a celeridade que o país precisa e da qual o governo é refém, passa por baixar a guarda e reconstruir pontes.

O DEM, presidindo a Câmara com Rodrigo Maia e o Senado com Davi Alcolumbre, e tendo o maior número de ministérios, passa a ser a esperança fundadora do governo. Legenda densa, é praticamente uma casta, com correligionários ligados por diversas gerações de coronéis. Como observou a repórter Julia Dualibi, da Globo News, sob Lula o DEM quase morreu. Mas o que não mata, fortalece.

 
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