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Chico e gin

“E a gente vai levando de teimoso, de pirraça / E a gente vai tomando, que também, sem a cachaça / Ninguém segura esse rojão.”

Nada obstante os maltratados fígados contemporâneos, aqui e alhures, tecnicamente é impossível não reconhecer em Chico um clássico, que igual a todo clássico, tem vapores de profeta.

Aos 42 anos, “Meu caro amigo ou Carta-cassete” segue atual, infelizmente até mais do que precisava. Gente exilada em Portugal, pirueta para cavar o ganha-pão, mutreta pra levar a situação, e até a tarifa do telefone, enfim de graça, está mais cara. Muito mais cara. Algoritmos. A coisa aqui tá preta.

Para alegrar Augusto Boal, Darcy Ribeiro e Paulo Freire, que na Lisboa de 1976 receberam a Carta-cassete de Chico Buarque e Francis Hime, graças à coragem da mãe do Boal, a notícia boa é que as meninas não consideram mais o gin um veneno, e inclusive vêm consumindo cada vez mais.

Meu lado Damares, que sempre achou que meninas e cervejas não combinam, hoje tende a achar que cerveja combina com ninguém. Não exatamente hoje, quando São Paulo amanheceu sob clima civilizado. Mas o calor dos últimos dias tornava qualquer bebida alcoólica insuportável, notadamente a cerveja, que finge que refresca mas na verdade esquenta, encharca e acaba mal digerida.

Pior: cientistas que estudaram seus efeitos dizem que a transpiração da cerveja, seja de verdade ou genérica, atrai pernilongos, incluindo o aedes. Então convém evitar.

Com o gin é diferente. Igual a cerveja é bebida urbana, feita na cidade. Mas só o gin merece viajar para fora delas. Cerveja viaja mal e o volume não compensa o esforço. Gin pode e deve viajar na bagagem de quem vai à Índia ou à África: não pesa na mala, não maltrata no calor e, misturado com tônica, conta com o quinino para espantar pernilongo. Ficando em Londres, ajuda colorir a neblina e, misturado a vermute seco, aproxima a ilha da Rive Gauche continental.

Em São Paulo, seja no clima indiano ou africano de janeiro, seja no clima semi-londrino deste começo de fevereiro, vá de Chico e gin. Ambos ajudam a segurar o rojão. E dizem que ajudam espantar os mais diversos pernilongos, lacerdinhas inclusive.

 
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