Facebook YouTube Contato

Brumadinho e meu canteiro de obsessões

Rodrigueano, tenho meu canteiro de obsessões. Não vou enumerar aqui para evitar que me acusem sempre que brotar uma flor. E porque flores aleatórias são ainda mais bonitas.

A apreensão dos computadores dos engenheiros da Vale e empresas contratadas escancarou o crime em Brumadinho. Agora sabemos que a tragédia foi anunciada com 48h de antecedência, tempo bastante para que ninguém tivesse morrido. Também sabemos que as sirenes, que não tocaram, estão intactas. Fosse um atentado terrorista para matar centenas de pessoas, provavelmente não teria sido tão bem-sucedido.

Dito isto, vamos à duas das minhas obsessões:

1)   Pacto empresa/Estado. Uma gigante como a Vale não pode ser administrada como empresa vulgar. Mesmo com tudo funcionando bem, estará errado. É fundamental que haja, como no estado republicano, democracia, participação social, conselhos locais.

O Brasil tem só 35 fiscais para 790 barragens de mineração? Na prática, sim. Mas em Brumadinho e nas 789 outras localidades há gente disposta a fiscalizar e participar de conselhos voluntariamente.

Falta é disposição das empresas em se abrir. O desprezo pelas pessoas, por suas ideias e suas vidas, como ficou provado no incidente, impera.

Precisamos de regras ou leis, e principalmente de um entendimento que estabeleça esse diálogo e institua conselhos deliberativos locais para operações de impacto, pertinentes à vida das pessoas e das cidades, ao modelo dos conselhos administrativos e de acionistas que tratam das finanças.

O tsunami doloso da Vale foi físico. Matou centenas de pessoas. Mas a concentração de renda e poder em diversos outros setores, físicos ou virtuais, vem causando outros tipos de destruição mundo afora. As decisões sobre como vamos enfrentar este problema não pode ficar nas mãos de meia dúzia.

2)   Municipalização. É mais ou menos o mesmo conceito sobre os conselhos, mas da perspectiva de Estado.

Se para a diretoria da Vale, instalada com todo conforto no Rio de Janeiro, assumir o risco sobre centenas de vidas em Brumadinho foi uma decisão fria e fácil, não foi diferente nos gabinetes dos secretários ou do governador em Belo Horizonte, ou do ministro e do presidente da República em Brasília.

Ao passo que, se cada um deles almoçasse no refeitório da Vale em Brumadinho, ou morasse com a família num sítio no caminho da lama, obviamente teriam outro tipo de cuidado.

Daí a importância de dar mais e mais autonomia aos municípios, às comunidades. O clamor paroquial por decidir como se quer viver é mundial.

Brumadinho é uma cidade sem graça. Uma não-cidade, como a maioria das cidades espalhadas pelo Brasil. O impacto positivo que a Vale causou, desde o começo da operação no cotidiano citadino, é nulo ou imperceptível. Contratou pessoas, é verdade; pagou royalties, o que é também. Assim como é verdade que por suas vidas e cidades não tinha qualquer consideração. Para a diretoria carioca, Brumadinho era um depósito de recursos-humanos.

Inhotim é só uma feliz coincidência. Está em Brumadinho como poderia estar em qualquer lugar. Bernardo Paz, minerador e rico pra chuchu, mas insignificante se comparado à Vale, mostrou que é possível fazer coisas belas e gratificantes pelas pessoas, por suas vidas e cidades.

 

 

 
 Share on Facebook Share on Twitter Share on Reddit Share on LinkedIn
No Comments  comments 

Deixe uma resposta

O seu endereço de email não será publicado Campos obrigatórios são marcados *

Você pode usar estas tags e atributos de HTML: <a href="" title=""> <abbr title=""> <acronym title=""> <b> <blockquote cite=""> <cite> <code> <del datetime=""> <em> <i> <q cite=""> <strike> <strong>