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Nosso Vale do Rio Doce interno

Há anos me surpreendi com a ficha técnica de um leilão de gado. Entre as várias classificações dos animais, constava “temperamento”. Ainda mais estranho era absolutamente ninguém dar bola para tanto.

Curioso irremediável e sem mais o que fazer além de aproveitar o uísque generoso de todo leilão, fui assuntar.

Um amigo explicou: padrão internacional. E quiçá notando a curiosidade igual ou maior na minha cara, acrescentou: na Europa quem tira o leite da vaca é o dono, ou a família do dono, então eles cuidam para que a vaca seja mansa.

Para ficar mais claro, tomemos por exemplo um bicho mais comum. Para brincar com as suas crianças, os pais tendem a preferir labradores a dobermanns.

Aqui no Brasil ninguém liga para o temperamento do gado. Salvo um excêntrico invejável como o ministro Mauro Aurélio Mello, que para ter leite fresco mantém uma vaca no jardim de casa em Brasília, o padrão do mercado é que o peão cuide da vaca. E sai mais barato substituir o peão contundido por um coice do que investir em vaca mansa.

No plano doméstico é igual. Chega a ser comovente ouvir os relatos de brasileiros chegando de Miami encantados com os supermercados americanos como a criança que viu a Cinderela. Exclamam: os equipamentos para lavar louça são incríveis! A gente nem encosta no sabão. Um ou outro mais entusiasmado chega a trazer na mala os acessórios de pia. Mas preservam para usar na folga da empregada. Enquanto isso, tome buchinha.

O lenço perfumado descartável, que num passe de mágica faz a roupa sair passada da máquina de secar, por lá também encanta e por aqui não se encontra. Lógica: é mais barato pagar a passadeira.

Com roupa nova é igual. Até em outlet americano qualquer freguês encontra roupa compatível com suas medidas. No Brasil sai mais barato fazer a calça com um palmo de pano extra e pagar a costureira para fazer a bainha. Quantos metros de jeans vão para o lixo diariamente?

Olho a fachada espelhada de um grande banco que acaba de distribuir uma dúzia de bilhões para meia dúzia de acionistas. Três peões fazem a faxina. Dois seguram as escadas, emendadas uma na outra para chegar na último vidro, e o terceiro opera o rodo, também emendado com outros cabos reutilizados. Para satisfazer minha certeza, pergunto e eles confirmam orgulhosos: são terceirizados e fizeram o menor preço.

Caso o mais experiente, que fica lá no alto, despenque e rache o coco e/ou a espinha na calçada, será substituído por um sobrinho que precisa ajudar em casa. Com sorte, será velado e em pouco tempo esquecido. Sem sorte, padecerá numa cama, esperando alguém chegar em casa para lhe dar água, comida e virar seu corpo para evitar escaras.

Dentro das agências não é diferente. A cadeira vagabunda entortou na primeira semana e segue empenando diariamente, no que é acompanhada pelas costas da menina do caixa.

Voltando para o campo, relevemos um pouco mais de defensivo naquela lavoura distante. Não há de ser nada. Mas por via das dúvidas, na fazenda aqui perto que virou condomínio, espalhemos pitorescas galinhas d’Angola contra cobras e escorpiões; girinos e peixinhos nos lagos do gólf para larvas de mosquitos. Afinal, não queremos conviver com veneno.

Fique à vontade o freguês que quiser me mandar tirar carteirinha do PT, ir para Cuba ou passar fome na Venezuela. Respondo antecipadamente: conclusões assim mais ajudam do que combatem populistas e ditadores de plantão.

Da mesma maneira, sinta-se à vontade quem preferir continuar chorando a morte das centenas de funcionários e vizinhos da Vale em Brumadinho e Mariana, os afogados da Rocinha, os meninos carbonizados no Ninho do Urubu, os 300 motoboys que morreram no trânsito de São Paulo em 2018. Um deles deve ter entregado o seu x-burger. Tranquilo: o aplicativo já encontrou outros.

Só não venha me dizer que as nossas decisões cotidianas são diferentes da tomada pelo executivo que fez uma barragem a montante com refeitório embaixo. Se diferença há, está na dose. O veneno é o mesmo. É amargo, eu sei. Mas corre pelo nosso vale do doce interno dia sim e outro também.

Está sol lá fora. Bom final de semana.

 
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