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Ressaca na Ambev (merecida)

Há mais de dez anos eu dizia que a Cervejaria Ambev seguia pelo caminho errado. Os amigos, devotos de Jorge Paulo Lemann e companhia, diziam que eu era louco, despeitado, ou simplesmente suspiravam com desdém.

Bom, eles também seguiam cegos as lições do Abílio Diniz e de qualquer bocó que juntasse mais de um bilhão no porquinho.

Como a Ambev sempre foi antes uma empresa financeira do que uma cervejaria, a matéria do Estadão começa mostrando a derrota monetária: em 2018 o Ibovespa avançou 15% e as ações da Ambev despencaram 30%. Para quem gosta de cerveja, pense numa garrafa de 600 ml que venha só com 400 ml.

Para quem bebe cerveja o pior não é a quantidade, mas a qualidade. Para fazer meia dúzia de super ricos, os tenentes do comandante Lemann não pensaram duas vezes antes de destruir receitas e marcas que faziam parte do histórico afetivo e cultural do Brasil.

O modelo de administração da Ambev é o que mais se aproxima do padrão cubano. Estranho? Então o que significa fazer meia dúzia de bilionários se valendo de táticas de guerrilha, destruindo produtos consagrados, desconstuindo marcas históricas? E aprisionar funcionários graduados com remuneração em ações que só valem se continuarem trabalhando na companhia? E mandar ao paredão do constrangimento soldados rasos que não “batem metas”? Há diversos casos de assédio moral envolvendo a empresa.

A Ambev agride até quando quer ser simpática. O chamado segmento premium, cuja uma das marcas é a Cervejaria Colorado, avisa em suas caixas: “Canibalizamos a lei alemã de pureza”. Quando compraram a Stella Artois,entraram nos escritórios europeus com cartazes de “incentivo” propagando as táticas de guerrilha usadas no Brasil, tratando concorrente como inimigo. Levaram um pito. Todo europeu tem um parente morto ou mutilado por guerra e definitivamente eles não gostam de analogias escroques com o tema.

Por falar em seguimento premium, a busca pela redenção passa pelo lançamento de marcas como Skol Puro Malte. Ora, a receita original da Skol provavelmente levava puro malte. Quem destruiu para ganhar mais dinheiro foi a Ambev. Encheram de milho e fazem lobby pesado (em 2014 a Ambev ajudou na eleição de 76 deputados de 19 legendas diferentes) para ampliar ainda mais proporção permitida, mais ou menos como se um produtor de leite pedisse autorização legal para misturar água em seus produtos.

A voracidade da “cervejaria” se estende a refrigerantes. Os devotos de Jorge Paulo, que frequentemente defendem o Estado Mínimo com fervor, são os mesmos que consideram natural terem privilégios fiscais para produção de guaraná e outras águas com açúcares embalados em garrafas pet na Zona Franca de Manaus. Estado mínimo nos olhos alheios, para eles é refrigerante.

Como está sol lá fora e eu não quero estragar o fim de semana de ninguém, fico por aqui. Vou sair para tomar uma Heineken e deixar a turminha da Ambev curtindo a ressaca financeira, que é a única que lhes toca os improváveis corações.

 
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