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Ilona Szabó perfumando Moro

Indiscutível na personalidade do ministro da Justiça Sérgio Moro é o zelo pela própria imagem. Claro que, sendo humano – revogadas disposições em contrário –, está sujeito ao erro. Mas qualquer pessoa sensata há de reconhecer o evidente esforço.

Visivelmente constrangido pela falta de respostas lógicas às incoerências entre o Moro juiz e o Moro ministro, com destaque para pano quente em casos de corrupção de colegas, nas investigações sobre a família do presidente, no entendimento sobre caixa-dois, nas evoluções de sua senhora advogando em audiências com autoridades federais, no uso eleitoral de despachos judiciais, o doutor Sérgio Ricardo, para não rachar a viola no palco ou enfia-la no saco, canta o grande sucesso do seu xará: Todo morro entendeu / Quando Zelão chorou / Ninguém riu nem brincou / E era carnaval.

Carnaval é mesmo e o que não falta é gente chorando, dos morros aos vales do Brasil. Sobre todo mundo ter entendido, não se pode dizer a mesma coisa.

O choro do ministro Moro é próprio dos arrependidos. “Onde fui me meter?”, pergunta-se o doutor, que apela para a segunda estrofe: No fogo de um barracão / Só se cozinha ilusão / Restos que a feira deixou / E ainda é pouco só.

A ilusão que tinha para hoje era cozinhar a “empreendedora cívica Ilona Szabó – que inacreditavelmente aceitou o papel. Qual é o aroma da fumaça? Ao modelo da Fazenda, demonstrar autonomia na pasta da Justiça ou, “estou aqui mas não com Bolsonaro e esses malucos”.

Ocorre que o ministro PaGue o fez no quarto dia, endossando o pito público de um funcionário de segundo escalão no presidente da República. A diferença é que tratava-se de um assunto que Bolsonaro ignora completamente (aumento de IOF), e não teria como consultar o Posto Ipiranga para reclamar com o próprio Posto Ipiranga.

Sérgio Moro além de atrasado não foi tão inteligente. Nas claques bolsonaristas sua escolha é tratada como abortista, desarmamentista, globalista financiada por George Soros, a favor do desencarceramento e da liberação das drogas. Tudo o que a BolsoFamília adora.

Em 24 de outubro de 2018 Szabó escreveu para a Folha um artigo intitulado Feliz 2023, alertando aos brasileiros como seriam os próximos quatro anos caso as urnas confirmassem as pesquisas. As palavras escolhidas merecem destaque: destruição, terrível, máquina de notícias falsas, desastre, retrocesso, censura, intimidação, morte, tristeza, medo, derramamento de sangue, desmatamento.

Os parágrafos relacionados às competências do ministro Moro são primorosos. Excludente de ilicitude vem grafado como “licença para polícia matar”, prevê aumento assustador de mortes de policiais, explosão de balas perdidas, cidadãos comuns tornando-se em assassinos, ataques institucionais impensáveis ao STF.

As previsões óbvias feitas por Ilona Szabó acabaram se confirmando e parecem não incomoda-la. Já as previsões mais difíceis, reconhecidas como otimistas pela própria vidente, qual o fortalecimento de ativistas e o florescer de novas vozes, ficaram ainda mais distantes com a sua adesão.

Que não venham me dizer da importância da pluralidade nos conselhos. A “empreendedora cívica”, reconhecida artilheira do ativismo pacífico, aceitou uma insignificante suplência de conselho consultivo. Isto é, cadeira no banco de reservas dos olheiros.

Senhora Szabó, aceite o fato: sua nomeação serve única e exclusivamente para perfumar o fedor que vem da Esplanada. Sérgio Moro, constrangido com o mau cheiro e sem querer ir para o chuveiro, pegou você para desodorante. Mistura porca. E como sempre acontece nesses casos, o ar ficou definitivamente empesteado.

 
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