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Orégano no Minhocão

Crônica publicada no projeto Esquina Encontros Sobre Cidades do Estadão

Bruno Covas usa uma imagem divertida para dizer como as ciclovias municipais entraram em São Paulo: espalhadas como orégano em pizza.

No caso, trata-se de uma crítica-chiste para provocar Fernando Haddad. Mas pode muito bem ser recebida como elogio: basta gostar da combinação orégano, queijo, tomate e massa para agradecer ao pizzaiolo que teve o cuidado final. E, convenhamos, o mundo todo gosta.

Apesar de divertida, a comparação não é exata. Primeiro porque as ciclovias foram recebidas como coentro, despertando amor e ódio. Depois porque, uma vez espalhado sobre a pizza, é praticamente impossível tirar o orégano, e o conceito das ciclovias propõe justamente o inverso: a prefeitura bota a tinta e a cidade experimenta; se der certo, faz a obra definitiva; se não, deixa sumir com o tempo.

Na Faria Lima foi um colosso. A adesão da população é tamanha que a ciclovia já merece tomar uma faixa dos carros para duplicação. Na Guilherme Cothing tem pouco uso e, se atrapalha o trânsito, pode ser revista. Ao contrário do que ocorre com as pizzas, em ambos os casos é perfeitamente possível aumentar ou diminuir a porção de orégano.

A imagem do prefeito Covas serve muito melhor ao seu projeto para o Parque Minhocão, apresentado à cidade pela Vejinha. Orégano fresco, caro e com aroma de gourmetização.

Acompanho o processo do Parque Minhocão desde o começo. Ouvi todos os envolvidos com atenção, em reuniões, seminários, audiências públicas. Insisti com a turma pró-parque e com a turma do desmonte que ambas as frentes eram geneticamente aliadas, que o verdadeiro adversário dos grupos era a maioria da população que quer continuar usando o elevado como via para carros. Jamais fui ouvido.

Minha posição desde o começo foi de apoiar a criação do parque como um teste, seguindo a receita da Janette Sadik-Khan, comissária de Transportes de Nova York na prefeitura exitosa de Michael Bloomberg, que transformou diversas áreas daquela cidade. Abre o trânsito para as pessoas e deixa rolar com ingredientes baratos e de intervenção superficial, como cadeiras de praia, guarda-sóis, algumas plantas. Temos isto no Largo de São Bento, na Praça do Ouvidor, e as pessoas adoram. Os usuários do Minhocão já fazem por conta própria algo semelhante aos finais de semana (há quem leva a samambaia para passear). Teríamos que ampliar o horário e dar uma força de leve.

Se funcionasse diariamente, aumentaríamos as intervenções. Canteiros, tablados, fontes, escadas, elevadores. A imagem que me vem à cabeça é a da Revolução dos Cravos, com as pessoas depositando flores nos canos das metralhadoras da ditadura salazarista. Gente enfeitando o Minhocão do Maluf seria historicamente lindo. Se não funcionasse, desmontaríamos.

Minhas reservas com a manutenção da estrutura passam pela qualidade de vida no chão. O Paulo Vanzolini, que tanto cantou ta região, fez Raiz, música que não sai da minha cabeça: Eu moro onde mora a raíz, no chão / No escuro calado e feliz do chão / No tempo que eu tinha asa / Piruetei, mandei brasa / Voei no vento do ar / Pra depois voltar pro chão / No fundo do chão eu brotei raíz / A seiva do chão eu bebi feliz / No escuro da minha casa / Vai me nascer outra asa / E eu volto solto pro ar / Contigo livre a bailar / Enquanto o vento soprar / Sem pensar no chão.

Como fica o chão? A parte da poluição atmosférica e sonora poderia ser sanada com regras duras para combustíveis e propulsão de ônibus e carros. Faria bem para toda a cidade, notadamente para áreas sob esses monstrengos. Pena é que nesse sentido seguimos estacionados, quando não damos marcha à ré.

A iluminação também preocupa. Sem sol, o chão fenece. O projeto apresentado fala em abrir uns buracos no tabuleiro para resolver a questão, mas não convence.

O projeto é ruim sobretudo porque é gaiato. Mostra como pode ser o ideal acabado, sem evidenciar que grande parte não está previsto para a fase inicial. Também ignora a participação das pessoas, ponto mais alto e bonito da luta pelo parque.

E das outras faltas pouco se fala:

. A parte do minhocão que avança sobre o Bixiga é solenemente esquecida;

. Quarenta milhões de reais para um parque de largada numa cidade que sequer mantém seus canteiros e viadutos, onde uma chuva derruba mais 400 árvores das poucas que restam, e que quer conceder os parques existentes a perder de vista, sob a desculpa de falta de recursos para manutenção, parece caso de internação;

. A não previsão de habitação social para aplacar a provável expulsão de antigos moradores é injusta – poderia e deveria ser combinada com incorporadores que vão se beneficiar do investimento público;

. O cronograma inicial apressado, com entrega prevista para as vésperas das eleições, é algo que a população definitivamente percebe e rejeita – e que aqui se parece antes com os muros da 23 e da USP do Dória do que com Bilhete Único ou os CEUS da Marta, a Virada Cultural ou a Cidade Limpa de Serra/Kassab, a mobilidade ou a Paulista Aberta de Haddad;

. Dada a proximidade da casa do prefeito com o Minhocão, não vou me espantar se ele acabar acusado de prefeitar em causa própria, como Maluf, que fez uma praça em sua esquina, cercou e nunca usou.

 
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