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A selfie tóxica ou o Luis 14 em nós

A grande novidade na egolatria atual é a democracia e, antes e mais abrangente, a velocidade com que foi atingida, sem tempo para digestão social.

Amor próprio é vitamina, ajuda a viver. Em caso de enfermidade pode ser remédio e ajudar na cura de um mau momento. E como toda droga, nessa toada corre o risco de virar veneno. Numa balada louca, provoca overdose.

A balada das rede sociais acelerou esse processo de democratização ególatra. Os retratos a óleo nas paredes, antes reservados aos mecenato renascentista, ou as estátuas e monumentos, ainda mais restritos, originalmente exclusividade de divindades mitológicas ou religiosas, depois a autocratas e tiranos, agora estão ao alcance de todos. Voltando ainda mais um pouco, chegaremos a Narciso, intoxicado pelo próprio reflexo.

Não à toa, em 2013 o dicionário de Oxford elegeu selfie como palavra do ano. Em 2018, a palavra é tóxico.

Me lembro de quanto surgiu o Orkut, mas não exatamente há quantos anos. Mais claro na memória é o argumento dos amigos que nos convidavam a participar: ele nos lembra as datas de aniversário dos amigos.

Ora, passamos milhares de anos recebendo parabéns limitados, de gente realmente querida ou socialmente comprometida conosco. De repente, centenas de votos, carinho imenso, vulgarmente agradecido como “massagem no ego”.

Qual seria o efeito disso no espírito coletivo? Meu palpite é que fica próximo do governante que, empossado, torna-se vítima de bajuladores. E como há nego talentoso para tudo, há exímios puxa sacos, capazes de enganar o mineiro octagenário. Imagina o que podem fazer com um adolescente instável de qualquer idade. Com a roda girando, até o próximo aniversário o sujeito procura retribuir os fãs com notícias sobre a própria vida, afinal, não quer desapontar ninguém.

Ficamos extremamente vulneráveis. O consumismo, que já era desmedido, cresceu na mesma proporção do amor próprio. Nos sentimos merecedores de recompensas repetidas que, se não vêm por êxitos intelectuais, afetivos, profissionais, esportivos, podem ser disfarçados com um par de tênis novos.

O aniversário universal ocidental costumava ser o de Jesus. O comércio, inspirado nos reis magos, nos levou a trocar presentes, como se os merecêssemos tanto quanto o Nazareno. Deu muito certo e não demorou para o vício se espalhar pelo ano, com dias disso e daquilo.

Com o fenômeno dos aniversários nas redes sociais, num prazo de dez anos, um sopro na história humana, passamos a sentir individualmente uma importância que não temos. Literalmente há 365 natais. E o algoritmo sabe onde está cada “menino Jesus” e é capaz de fazer brilhar uma Estrela de Belém na timeline dos potenciais reis magos, fortalecendo o círculo vicioso.

A vulnerabilidade serve para tudo. Mensagens políticas passaram a apelar para os sentimentos mais primitivos, aqueles que o pudor não nos permitia revelar nem a nós mesmos, despertando nosso Rei Sol individual. Resultado: cada um de nós acha que “o Estado sou eu”.

Como tem limite para tudo, chega um dia em que não basta seu nome escrito numa joia, na camisa da seleção, seu retrato nas redes sociais. E, quando cai a ficha da impossibilidade de ter a própria face estampada numa moeda – nos cartões de crédito já é frequente –, ou o corpo sarado eternizado em mármore na praça matriz, o Luizinho 14 reage. Igual a todo tirano, compra umas armas e libera os demônios da vingança contra a ingratidão de “sua” gente.

É urgente equilibrar isso. Como fazer, não tenho certeza. Mas se nada for feito, não demora virão as guilhotinas contra selfies. E basta olhar as redes para ver que cada um de nós hoje é um monarca.

 
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